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Dança do Ventre: Por que Geometria Corporal Expressiva?
Escrito por Simone Luciaurea Coelho   

luciaurea_nova.jpgA geometria é a grande metáfora da Ordem Universal, por isso é sagrada, pois é presente em todos os ciclos da vida. Galileu disse “O livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos”.

 

 

Segundo o documentário: “Beleza – Harmonia e Perfeição”, produzido pelo Channel Discovery,  1994, quando olhamos a beleza da natureza vemos equações. Não pensamos no valor da circunferência de um círculo, mas vemos uma lua redonda. Através da ciência, provou-se que a elegância da matemática é fundamental para a beleza da natureza.

 

 

Um dos autores do documentário, Galen Rowel, fotógrafo de paisagens, diz: “Eu acho que nossas mentes procuram formas geométricas que nós reconhecemos claramente: triângulos, círculos e quadrados... todos os tipos de coisas que são relevantes para a nossa vida. Olhamos para essas coisas e queremos que sejam simples e ordenadas. Não queremos que estejam todas misturadas. E nos lembramos das formas mais simples”.

Nós possuímos circuitos de reconhecimento de padrões nos nossos cérebros que nos fazem enxergar um mundo cheio de geometria. Considere que tudo o que existe possui estrutura geométrica, e que você, é pura matemática.

 

 

Concluindo: estando presente nas bases biológicas, está presente na mente. O inconsciente conhece sua linguagem. Então, se conhecermos a “linguagem oculta” da mente, poderemos descobrir maneiras mais fáceis de “aprender”.

 

Dança do Ventre possui implícita em si a geometria do sagrado. Seus movimentos curvos e retos não são apenas uma questão técnica, mas questão de evolução da técnica, e também de auto-conhecimento, e auto-conhecimento, parte de dentro para fora: inconsciente » subconsciente »  consciente = consciência corporal.

Aqui começa o recurso da geometria para ensinar a técnica.  

 


Explico melhor:

As linhas retas estão ligadas ao pensar. Por exemplo, as civilizações que em sua arte e em sua vida diária, em sua organização urbana, etc., utilizaram as formas geométricas retas com abundância, revelaram alto grau de inteligência e racionalidade. Tomamos por exemplo as civilizações egípcia, grega e romana.

As curvas orgânicas (algumas figuras curvas, como o círculo, embora ele também trabalhe a fluência, são consideradas formas racionais, exatas, isto é, não orgânicas) estão ligadas ao sentir, ao fluir e são emocionais. Expressam-se por semicírculos e curvas conjugados, as elipses distorcidas conjugadas, os oitos, as espirais.

Por exemplo, podemos tomar alguns aspectos da arquitetura mudéjar e bizantina, cujos elementos são muito empregados pela cultura árabe, que se utiliza muito de formas racionais em sua arquitetura. Algumas paredes encurvadas, detalhes em rendilhados e cúpulas em forma de cebola revelam um aspecto do temperamento de um povo, a paixão, a emotividade e a poesia: o povo árabe. Temos também um exemplo brasileiro completamente diferente: a organicidade de Brasília. O povo brasileiro não é um povo quadrado, é orgânico.



A Geometria no Corpo

Agora, vamos traduzir isso para linhas que criam formas em movimento no corpo dançante.
Em se falando de movimento, em posição vertical, da configuração dele no corpo, no côncavo, o escavado ou cavado, as primeiras forças atuantes são as de fora para dentro: a percepção do movimento é a de que estará voltado para dentro e fechado para o mundo, para o exterior: implica, por exemplo, no fechamento da caixa torácica. Seu movimento pulsa contido e passa a idéia de algo escuro e inquieto, auto-defesa, baixa auto-estima.

No convexo, as primeiras forças atuantes são as de dentro para fora: está voltado e aberto para o mundo. Possui movimento livre e luminosidade atuante. Abertura da caixa torácica.



A Estrutura Ideológica da Forma no Corpo
Penetrando agora na estrutura ideológica da forma, no significado que ela transmite, voltemos àquelas três iniciais: o quadrado, o círculo e o triângulo.

Formas arquetípicas-chave, como o círculo, o triângulo e o quadrado, emergem da natureza biológica, não com perfeição, mas como uma interpretação humana, penetrando no inconsciente coletivo. Estas formas arquetípicas-chave dão origem a todas as demais. Esta abstração geométrica é conferida pela mente humana, no estudo da geometria filosófica (Lawlor, 1982), como constatamos:

•    O círculo, durante milênios, foi símbolo de perfeição e unidade absoluta, sendo, na cultura pitagórica, associado a Deus;

•    O triângulo, por sua vez, representou a trindade, ou a união do PAI com a MÃE para o nascimento do FILHO – estando entre o plano do divino (unidade do círculo – Deus/Pai) e o material (Terra/Mãe);

•    O quadrado, sendo considerado a primeira forma nascida, manifesta a materialização do plano físico.

 

 

A Estrutura Ideológica da Forma no Corpo

O Círculo
O círculo é uma figura racional, representa estabilidade evolutiva, por estar sempre em contínuo movimento. O círculo é constituído por uma curva contínua sem fim. Em movimento no corpo, atua como descongestionante de tensões acumuladas.

Em termos de movimento, pode estar relacionado ao aspecto mãe-feminino, embora em sua representação numínica possa estar ligada ao aspecto masculino-pai; isso porque o círculo comumente está associado à representação do céu, que na nossa cultura está ligado ao aspecto psicológico do pai, embora em algumas outras culturas como a egípcia antiga, por exemplo, o círculo representasse o céu pela deusa Nut, a mãe-céu, e na grega, Gaia, a terra, que é redonda. Em termos de movimento, está relacionado à mãe porque seu efeito visual é feminino.

 

 

Assim, redondos são movimentos de natureza cinestésica yin. Os movimentos circulares também podem representar a convergência ao centro feminino, com sua respectiva simbologia uterina e ctônica com o centro da terra – convergência para o centro feminino interior, convergência para si mesma.

 



A Estrutura Ideológica da Forma no Corpo

O Triângulo

O triângulo representa dinamismo, estabilidade e, mobilidade, mas, se invertido, pode representar perigo, instabilidade e desequilíbrio. O triângulo é constituído por linha ascendente e descendente diagonal e reta horizontal, que são representadas, na dança, através dos acentos dos shimmies. É uma figura racional e masculina, embora nas pesquisas de Lawlor, sua relação seja simbolicamente intermediária – entre o feminino e o masculino.

Em termos de movimento, ele pode aparecer nos momentos de transição – de um movimento feminino para um masculino, a fim de criar alguma coisa nova. O que caracteriza um movimento em gênero, é sua característica visual, seu significado numínico e sua natureza cinestésica. Por exemplo: num deslocamento, ou com um peso em uma perna, eu realizo movimentos yin, como oitos e redondos.

 

 

Ao transferir o peso para a outra perna, ou me dirigir para a segunda extremidade do espaço cênico, eu realizo movimentos yang (shimmies e breaks) e em seguida concentrar o peso entre as duas pernas ou projetando-o para frente ou para trás, ou ir para o terceiro ponto do espaço cênico e misturar os dois tipos de movimentos.

A Estrutura Ideológica da Forma no Corpo

 



O Quadrado

O quadrado é também uma figura racional, representa força, segurança, imobilidade, racionalidade, ausência de emoções e poder. O espaço cênico mais utilizado é o quadrangular ou retangular.  Nossas técnicas de deslocamento na dança são realizadas em função dessa organização espacial que inspira ordem para execução coreográfica. O quadrado, constituído por retas verticais e horizontais, é um referencial para o deslocamento e para nossa inserção no espaço de dança.

Em termos de movimento, está relacionado com o aspecto masculino-pai, porque caminha em linha reta, representando a busca do destino através do intelecto, embora, na acepção de Lawlor e outros como Tuan, sustente a idéia da mãe, por ser considerado a primeira forma nascida e utilizado em mandalas para representar a terra, que possui qualidades femininas.

 

 

Podem ser considerados “movimentos quadrados”, os movimentos interrompidos, truncados, estacados e deslocamentos em linha reta. O Shimmy Soheir Zaki, por exemplo, se executado de forma seca, sem tremidos, se torna um movimento quadrado. Estes movimentos trabalham aspectos masculinos da mulher, são movimentos yang.

A Estrutura Ideológica da Forma no Corpo

O Oito


Os esquemas geométricos da vida, no mundo atual, são estudados, segundo Jung, através da microfísica, que, por meio de fotografias, revelam nas imagens, os intervalos das relações geométricas microscópicas. (No entanto, deve-se levar em conta, a interpretação e leitura que os sensores ópticos dos aparelhos, fazem desse mundo microscópico).

 

 

Todos estes elementos da geometria se verificam, são interpretados na forma plástica da Dança do Ventre. Ela possui movimentos retilíneos em que a cabeça desliza de um lado para o outro, o tronco (parte superior) e o quadril (parte inferior), também. Ela possui determinados tipos de movimentos com os ombros e o tronco que quando feitos, se unem formando arestas e figuras. Possui movimentos curvilíneos em que os braços imitam serpentes e suas mãos são suas cabeças, em que os quadris se movimentam para baixo e para cima, para frente e para trás ou diagonal, formando o círculo ou redondo e o oito, símbolo do infinito.

Esta questão em particular, o oito, merece consideração especial. Sua definição na matemática é “Lemniscata” (do latim lemniscatum), estudo da geometria referente às curvas em forma de 8. Sua forma pode sugerir instabilidade quando é executado sem constância, de maneira desregulada, sem ritmo, conturbada e agressiva. Quando suas curvas são muito fechadas, passam a sensação de limite e prisão. Mas também pode ser executado com curvas amplas e assumir uma estrutura lírica, sensual e emocional. É também a figura do labirinto, ele vai e volta, vai e volta, exatamente como num labirinto sem fim.

Em seu aspecto positivo, trabalha a simetria e a assimetria, a ordem, o grande e o pequeno, como elementos a serem explorados como recursos para o auto-conhecimento: por exemplo, emoções lineares como a paz, emoções assimétricas e inconstantes como a raiva, as grandes e as pequenas emoções que vivenciamos em cena quando inspiradas pela música ou movimento.

 

As dificuldades mecânicas em algumas dessas variações indicarão a necessidade de se trabalhar aspectos até então desconhecidos pela praticante que se revelarão, que podem variar, desde uma dificuldade de se realizar um oito num plano diferente, até uma dificuldade de soltar o quadril.

 

O círculo na Dança do Ventre é uma estrutura bastante conhecida: os redondos, vulgarmente conhecido como “rebolado”.

O interessante é que se unirmos dois redondos, teremos de novo o oito. Num aspecto filosófico,  Aluísio Dias (1998) se refere ao 8 como o número divino. O Número de Deus. E faz a seguinte colocação:

 

“O gozado é que só agora, com o aparecimento dos números digitais, qualquer um pode observar que no número oito estão contidos todos os outros números.
Coincidência gráfica?

Na verdade o símbolo 8 ou 8 ou 8 é a mesma coisa. Nos prova a dualidade do universo”. 

 

O mesmo autor ainda coloca que a tese do oito foi cientificamente comprovada pelo astrônomo Denis Di Chico, através de uma máquina fotográfica direcionada para o sol, com o objetivo de, durante um ano, na mesma chapa, fotografar a forma do reflexo da órbita da Terra em relação a ele, e o resultado obtido foi: o oito, embora a Terra possua uma rota elíptica que torne os círculos do 8 irregulares.

Ousadia ou não, a idéia existe.


O Universo, ou o Oito, na Dança do Ventre, é um símbolo maravilhoso. Adaptando a idéia de Aluísio, “Nós unimos os versos”.

FONTES:
Arnheim, Rudolf: Arte e Percepção Visual – Uma Psicologia da Visão Criadora. São Paulo: Ed. Pioneira, 2000.
Cetta, Denise S., Ward, Jonathan: Beleza – Harmonia e Perfeição (vídeo). São Paulo: Vídeo Abril; 1994. 50 min.
Dias, Aluísio. All, A língua Luz A São Paulo: Editor A; 1998.
Filho, João Gomes: Gestalt do Objeto – Sistema de Leitura Visual da Forma. São Paulo: Escrituras Editora, 2000.
Guimarães, Carlos Antonio Fragoso: A Física Moderna [texto eletrônico extraído do livro Percepção e Consciência – Uma Nova Visão de Mundo]. 1996. Disponível no site: <URL: http://www.geocities.com/Vienna/2809/físicamoderna.html>. [2002 Jun 08].
Jung, Carl Gustav: O Homem e seus Símbolos. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1964.
Lawlor, Robert: Geometria Sagrada. Madri: Edições del Prado, 1996.


LUCIAUREA
Formada em Magistério e Arquitetura e Urbanismo, desenvolveu-se em terapias corporais através da dança, sendo precursora do termo Geometria Corporal Expressiva, inspirado pela sua formação. É instrutora de metafísica aplicada à dança, escritora, bailarina e coreógrafa, pesquisadora, professora e produtora cultural.
Dançando artisticamente desde 1981, realiza pesquisas de cunho científico, e outras de cunho metafísico, visando aprimorar as pedagogias e recursos de ensino existentes em torno de técnicas de dança, relaxamento, consciência corporal e educação somática.


Simone Luciaurea Coelho


http://www.luciaureacoelho.wordpress.com

 

simone.luciaurea@gmail.com

 



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