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Há quanto tempo você dança?

luana_nova.jpgNeste artigo a bailarina e professora Luana Mello discute de que maneira a experiência na dança influencia nossa qualidade como bailarinas. Confira!

Há tempos quero escrever esse post, mas precisava escrever com muita calma pra não ser mal interpretada...

A gente exibe com orgulho, no currículo, nosso tempo de dança, como se ele realmente fosse sinônimo de qualidade - quem dança há mais tempo, dança melhor - e na realidade, as coisas não funcionam bem assim.

Eu comecei na Dança do Ventre em 1991, há 17 anos. Quem lê pensa: "nossa, quanto tempo, ela deve dançar horrores," mas nesses 17 anos as coisas não foram nada fáceis. Primeiro que quando eu comecei, a gente brigava por meio metro de aljofre, na 25 de março. Não tinha DVD, workshop internacional, nada dessas coisas.

Ninguém sabia que joelho dobrado era errado, nem que oscilar a altura era crime hediondo... A gente pisava com os pés tortos, com os braços songomongos e as professoras de Dança do Ventre nem imaginavam que era necessário prestar atenção na coluna de alguém.

Omar Nabulsi começou a trazer algumas poucas pessoas de fora, mas isso era pra alguns, por que além de caro, a divulgação não chegava em todo mundo. Não tinha internet... Nada! A Lulu nessa época já era uma das melhores, ao lado da Soraia e da Munira, mas mesmo as duas ainda eram muito carentes de informação.

Demorou muitos anos pra que alguém me fizesse correções básicas, e mesmo assim, muitas delas, eu aprendi olhando, outras em aulas de modalidades diferentes, mas enfim, as coisas eram muito toscas.

Tudo o que eu aprendi em todos esses anos, dá pra juntar em uns sete anos, na boa. Por que eu fui aprender que não se podia oscilar a cabeça em 1999, imaginem as outras coisas! Leitura musical é algo que eu só descobri que existia em 2004, até então, nenhuma professora NUNCA havia me dito para ouvir os instrumentos. Eu dançava feliz, tudo errado, seguindo o tempo sofridamente e achando que eu estava arrasando!

A ignorância é mesmo uma benção...

No Ballet, desde pititinha, você aprende a ouvir a música, seguir as notas e os instrumentos. Aprende logo cedo o que é compasso, como se conta o tempo... Na Dança do Ventre a professora falava assim: "Tá ouvindo esse DUM ai?"

Mas na boa, elas não tinham como ter uma qualidade melhor, por que nós não tínhamos acesso à informação. Acham que viajar pro Egito era fácil como hoje em dia? Fazer aula com Shokry, Farida, Dina, Mahmoud, era sonho... Quando a Soraia foi pro Egito, isso anos depois, ela era endeusada aqui por que tinha acesso a todas as informações que nós nem sonhávamos que existiam.

As prôs davam o melhor, mas mesmo assim o processo de aprendizado era lento, quase estagnado...

Hoje uma menina entra na aula e encontra uma professora muito mais evoluída e preparada (claaaaaro, que com exceções). Hoje existem cursos avulsos que antigamente só existiam nas faculdades: Biomecânica, fisiologia do exercício, nutrição para atletas, cinesiologia, feldenkrais, reeducação do movimento, etc. O conhecimento ficou barato e acessível. Hoje existe faculdade de dança, artes do corpo...

Minhas alunas e ex alunas, com quatro ou cinco anos de dança, estão dançando o que eu levei uns dez anos pra aprender. Ah, lembrei de uma coisa... Uma vez cheguei a ouvir de uma professora que a "meia ponta alta vc usava para deslocamentos grandes e a meia ponta baixa para deslocamentos pequenos!" Meu Deus... Minha priminha de cinco anos, que faz Baby Class sabe que isso não existe.

Seria engraçado se não fosse trágico!!!

Mas enfim, o que eu quero dizer com tudo isso, é que julgar uma bailarina pelo tempo de dança que ela tem é um erro. Outro dia ouvi uma menina dizer que ia fazer aulas com a Fulana, que tem 200 anos de dança, por que ela era melhor que a Cicrana que dança há uns 5. Pra mim, opinião de bailarina profissa, a Cicrana que dança há 5, é bem melhor que a Fulana dos 200.

Fora que as novas gerações sempre vêm com uma garra invejável. Claro que a preguiça existe e a acomodação também - as duas coisas que eu mais combato aqui no blog - mas dá muito gosto de ver essas meninas novas correndo atrás de informação e mordendo pelo seu território.

Muitas bailarinas das antigas foram esmagadas pelas jovens, não por causa da idade, mas por causa da garra. As mais novas entraram com tudo há uns anos atrás e as mais velhas ficaram anotando a placa. Uma boa lição de humildade para aquelas que achavam que nunca iam ser superadas. Dai tentavam disfarçar seu susto com frases do tipo: "Nem saiu das fraldas e acha que dança!" Mas o pior é que elas dançam!!! E muito bem, não adianta chorar...

Algumas das antigas, como a Lulu, nunca pararam de correr atrás e continuam na liderança, outras das antigas se reinventaram e começaram a correr atrás do tempo. Se tocaram que dança não é questão de idade, é questão de estudo. A idade só vai fazer diferença mesmo lá pelos 50, quando o corpo começa a pedir pra parar... Até então você tem muito tempo de correr atrás.

Então, hoje em dia, quando você põe no palco duas ou três gerações, tem que deixar a hipocrisia de lado e admitir que sim, no palco elas podem ser iguais e as mais novas até melhores. Tempo de dança não serve pra nada, o que interessa mesmo é o que você mostra quando as luzes se acendem.

Apenas uma coisa nisso tudo, vem com o tempo: A experiência. Isso sim é impagável. Não se compra, não se ganha, não se rouba. Só os anos, os erros, as cassetadas e os acertos te deixam experiente.

Daqui a alguns anos, posso ser facilmente superada ou igualada a alguma aluna (se é que isso já não aconteceu) e essa notícia me deixará muito feliz, por que como professora eu quero mais é que as minhas crias cresçam e é obrigação minha me rebolar pra me manter a frente ou igual.

Mas numa coisa eu sempre estarei a frente delas: A experiência. E pela experiência eu também estarei sempre atrás das minhas professoras.

Publicado origionalmente em www.dancadoventre.art.br

Luana Mello
Bellydancer
Dança do Ventre e Danças Exóticas
www.luanamello.com.br

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