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A dança e os orientalistas PDF Imprimir E-mail
Por Sara Naadirah   
sara_naadirah.jpgA dança, no antigo Egito, que era considerada sagrada e que continha uma sabedoria ancestral, era desconhecida no mundo ocidental. O que aconteceu e como foi quando se descobriu esta forma de arte? E que impacto teve numa sociedade tão diferente?
 
Depois de gloriosos séculos de reinado, o Império Faraônico já há muito cobiçado é conquistado. Acontece a primeira abertura para o ocidente, através dos gregos e sequentemente pelos romanos. Com eles, outras formas de ver, sentir e viver a Vida iriam influenciar o estilo de vida dos egípcios e consequentemente a dança iria sofrer modificações, boas e más!

A principal mudança foi a introdução da Razão numa arte até agora espiritual e com ela, houve a necessidade de criar a chamada “técnica” nos movimentos, tentaram perceber porque é que eram assim. Com o legado de Alexandre “O Grande”, a influência de outras culturas, como por exemplo a Pérsia, Babilônia, Índia, a dança oriental ganhou novos movimentos e novos estilos. Mas aos poucos, principalmente com a influência romana, a essência da dança oriental foi-se perdendo, dando lugar à ignorância e decadência, ao ponto de que quando o cristianismo se tornou religião oficial do Império, a prática da dança foi desencorajada.

Segue-se a ocupação árabe e turca, tornando-se o Egipto um país muçulmano, e com eles há a introdução do Harém, lugar composto por centenas de mulheres vindas dos mais diversos lugares e das mais variadíssimas culturas. Entre conversas, banhos, maquilagens, roupas, penteados, leitura de poemas, elas tocavam e dançavam partilhando os seus sentimentos. Nestes lugares, à semelhança com as invasões de outras culturas, a dança ganha influências, nasce fusões que ainda hoje são sentidas.

Mas é nos séculos XIX e XX que irá haver a grande abertura do Oriente para o Ocidente.

Viajantes, curiosos escritores e artistas, partem em exploração para o Norte de Africa até então quase completamente desconhecidos para os Europeus (muitas destas expedições começaram com as viagens de Napoleão). Estes, com uma mentalidade fechada, eram senhores de um puritanismo hipócrita, que ao depararem-se com uma cultura diferente irão julgar e interpretar o que viam à sua maneira.

São nestas viagens, que um sem número de desenhos, pinturas e descrições serão realizados quase como documentação daquilo que experenciavam, embora a maior parte destas obras, não correspondesse à realidade.

Encontramos na Pintura Orientalista representações exageradas, retratos de mulheres sozinhas ou em grupo, sempre com expressões descontraídas e sedutoras dançando em trajes soltos e transparentes. Tudo fruto da imaginação do artista, da realidade que confrontava!

Claro que a mulher Oriental sempre teve uma maneira diferente de estar na vida que a Ocidental, ainda hoje há diferenças! Mas não eram aquilo que apresentavam aquelas pinturas fantasiosas de homens que não compreendiam essa diferença. Por sua vez, no velho continente, ao depararem-se com essas mesmas pinturas, iriam interpretá-las negativamente, havendo um choque mas, principalmente preconceito.

Foi através destas documentações, que nasce o grande preconceito ocidental em relação à dança oriental, que infelizmente, predomina até aos dias de hoje! O Ocidente que não conhecia o Oriente na sua essência, vai começar a pensar que é um lugar lascivo, cheio de pecado, aberto a todo o tipo de “desgraça” física e moral, onde as mulheres se dão ao prazer através das suas danças exóticas e sensuais.

Para ajudar, em 1892, em Chicago, houve a primeira grande exposição mundial. Este acontecimento foi o que mais marcou e difundiu a Dança Oriental pelo Ocidente. Nesta exposição, onde houve a representação de todos os países, o Egito mostra a sua música e bailarinas de ventre descoberto (daí ficar conhecida como dança do ventre) que dançavam de uma forma esquisita mas com uma vitalidade e energia nunca vistas. Como curiosidade, uma dessas bailarinas ficou conhecida como “Little Egypt” de seu nome verdadeiro Fahreda Mahzar, que iria influenciar o estilo “Hoochi-Koochi” americano.

Além das pinturas, chegaram ao ocidente descrições e fotografias de tribos “ciganas” que também foram em grande parte responsáveis pelo preconceito gerado, em relação, especificamente à dança oriental.

Uma dessas tribos, chamadas “Gawazy” (com significado: forasteiras e invasoras de corações), de origem indo-persa, eram nômadas que viviam viajando pelo Médio Oriente mostrando em público música, dança e outras “artes” tão apreciadas por estrangeiros e também nativos. As suas danças eram tão “estranhas” aos olhos dos estrangeiros que um deles descreve:

“todas elas têm o poder de mover qualquer parte do corpo livremente, tal como algumas pessoas conseguem mover só as orelhas; e é fantástico como elas agitam todos os músculos da maneira mais violenta e rápida durante horas, estremecendo da cabeça aos pés como se estivessem eletrificadas, sem mostrarem o mínimo de fadiga e, o que é mais incrível, sem uma gota de suor.”

Elas eram bastante mal vistas inclusive pelos nativos, pois mostravam-se em público sem véu e tinham uma atitude de desafio sem preconceitos e sem preocupações com o que pensavam. Ainda hoje existem famílias de “gawazy”, porém bastante poucas.

Imaginem agora o que estes estrangeiros diziam quando chegavam `as suas casas e para as suas esposas!!! Percebe-se perfeitamente, e devido a todos estes acontecimentos e descobertas, o porquê de a “tradição” errada, associar a Dança do Oriente a uma sensualidade pecaminosa, uma dança perigosamente libertadora.

Em contra partida, existiam as “Almées”. Estas eram Artistas! Com um respeito e renome invejáveis. Eram muito solicitadas em festas e haréns muito bem aceitos pela sociedade.

Estas mulheres, extremamente cultas, tocavam, recitavam poemas e dançavam veladas e nunca na presença de estrangeiros, daí pouca documentação existir. Tinham uma atitude completamente oposta `as “gawazy”, tendo mesmo recusado a dançarem para audiências francesas de alto nível.

Atuavam em grupo, onde tinham uma responsável que as coordenava e escolhia as apresentações. Durante muito tempo estas famílias de “almées” trabalharam na famosa rua de “Mohamed Ali” que agora se encontra em completa decadência.

Espero que perceba agora, como é falso todo o preconceito de décadas associadas à dança oriental, infelizmente ainda mau juízo. Cabe a você, bailarina, mudar as mentalidades, através principalmente da sua dança.

Sara Naadirah
Bailarina e professora de Dança do Ventre em Portugal
www.saranaadirah.com
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