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Diário de Joana Saahirah - Parte 5 PDF Imprimir E-mail
Por Joana Saahirah   
joana.jpgJoana Saahirah, bailarina portuguesa que dança no Cairo, escreveu este diário diretamente de lá, contando um pouco sobre como é viver e dançar no Egito. Confira!

De 18 de Fevereiro de 2008 até 22 de fevereiro de 2008.

 Cairo, dia 18 de Fevereiro de 2008

 
O frio regressou ao Cairo. Sendo uma pessoa de Verão e já estando numa disposição totalmente primaveril, este foi um choque que me apanhou desprevenida.
 
A lei que saiu recentemente permitindo às bailarinas estrangeiras o trabalho num só local tem tomado grande parte da minha energia mental.

Isto não é só descriminação e injustiça como traz outros problemas agregados que tornam a vida das bailarinas estrangeiras ainda mais difícil do que já é sem estas leis absurdas que só os egípcios com a a sua imensa imaginação e tolice podem conceber.
 
O mercado é muito pequeno e competitivo. Essa mesma competição é desleal e rege-se por corrupção, prostituição e pela rede de "conhecimentos" sociais e "PESSOAIS" (pessoais no sentido de ...cama...caminha...e tal...entendem??!!!) e não pelo valor que cada um possa acrescentar ao campo das artes ou da dança em concreto. Nem sequer se trata do rendimento financeiro que uma bailarina possa trazer a um "nightclub" ou a qualquer local de espectáculos pois os rendimentos destes locais vêm, normalmente, de outras fontes muito mais obscuras e rentáveis. Trata-se de simples caos.
 
O facto de apenas podermos trabalhar num só local frustra as perspectivas de crescimento de carreira e limita muito o nosso rendimento ...especificamente para quem vive exclusivamente da dança e não acrescenta outras funções que não pertencem a este campo, como faz a esmagadora maioria das bailarinas árabes. O que nos pagam num só local não chega para vivermos confortavelmente e continuarmos a custear todas as despesas relativas ao desenvolvimento do nosso projecto profissional (se este existir, claro!).

Trajes novos, maquilhagem, cabeleireiro, pedicure e manicure, novos e melhores músicos para a nossa orquestra, ensaios, dinheiro extra para bailarinos e adereços, trajes dos músicos da orquestra, comissões para estes e aqueles que nos vão arranjando trabalho, ginásio e outros cuidados a ter com o corpo e com a pele, etc, etc...um manancial de aspectos a serem cuidados TODOS OS DIAS e que extenuam até um Tarzan Taborda mas que , para nós, têm de ser cuidados básicos e normais. A exaustão torna-se a nossa companheira mais chegada. Já não me recordo da última vez em que não me senti exausta!!!
 
Dou voltas à cabeça tentanto encontrar uma solução para este problema e sei que a vou encontrar. Embora trabalhe praticamente todos os dias – 5 dias por mês de folga! – o que se ganha não chega para cobrir todas as despesas inerentes a este trabalho e ainda cobrir o aluguer da casa, comida, roupa, todas as coisas normais que gente normal – como eu! – necessita!
 
Penso naquela máxima que diz "Deus fecha uma porta mas abre uma janela", ou algo assim do género...para algum alento, esperança. Sei que a solução virá de repente, como um relâmpago inesperado! Virá!
 
23.00h – Hoje apenas fiz um espectáculo! Estranho...Já não estou habituada. Por outro lado, toda a minha energia e disponibilidade mental se concentra num só encontro com o público e isso traz-me inspiração, presença total e calma para dar o meu melhor!
 
2.00h – Cansada. Estou na cama e a minha gatinha deita-se ao meu lado, pedindo festas. Este é o mau anjo, sem dúvida. Além de ser a gatinha mais "sexy", linda e carinhosa do mundo (além de histérica, tenho de admitir!), ela é a minha grande fonte de paz, carinho e pureza. Simplesmente o meu anjo.
Adormeço com a minha mão no peito delicado da gatinha e ela abraça a minha mão com as patas, ronrronando e semi-cerrando os olhos de coruja enquanto me vê adormecer. A isto se chama paz.
 
Cairo, dia 19 de Fevereiro de 2008
 
Acordei para mais um dia de frio extremo.Já não estava mentalizada para isto, confesso...as minhas roupas de Primavera já estavam  sair cá para fora e a minha mente já estava completamente imbuída pelo sonho do sol que aí vem...
 
O trânsito do Cairo está a tomar proporções totalmente assustadoras!
Não existe hora, local ou circunstância durante as quais não nos encotremos parados no trânsito.Os taxistas perdem a paciência mais do que é habitual e as pessoas já não sabem como chegar onde pretendem sem um atraso de, pelo menos, uma ou duas horas.

Graças a Deus pelos meus livros que andam sempre comigo na carteira e m salvam, de certa forma, dessa sensação frustrante que é a perda de tempo...tão comum por aqui...
 
Continuo à procura de apartamente onde ficar enquanto a minha casa se termina. Com a presença dos estrangeiros e a inflação, os preços aumentaram brutalmente e não se encontram casas habitáveis pelos preços justos do Egipto tendo em conta que uma pessoa , como eu, ganha em libras egípcias sob o "standard"dos egípcios. Muito difícil! Olham para mim, sou estrangeira! Pensam...estrangeira: RICA. E puxam, puxam, puxam...é demais.
 
Hoje vi alguns apartamentos novos e bonitos mas muito longe do centro da cidade onde grande parte do meu trabalho e vida social se desenvolvem.

Tenho de achar um apartamente urgentemente. Já não aguento ver todas as minhas coisinhas em caixas...
 
Também estou a organizar uns dias de folga! FOLGA! Não sei o que isso significa há muito, muito tempo...meu Deus! A última vez que tirei umas férias foi há mais de quatro anos atrás e, desde essa altura, não tenho feito senão trabalhar, viajar, procurar, lutar, programar, atingir, pensar e continuar a lutar...uffff! Estou exausta.O meu cérebro já não está a funcionar a cem por cento.

O facto de todo este tempo ter andando por países árabes também contribui para o cansaço. É o facto do trabalho em si, da busca, da luta e, principalmente, o facto de tudo se desenrolar numa cultura ou sociedades (porque cada país árabe é uma sociedade diferente e específica em muitos aspectos) tão diferentes e contraditórias à minha, a religião ou a forma como é vivida e transmitida nestes países, a mentalidade da idade da pedra...etc...tudo isso e a convivência com o absurdo e a corrupção troueram-me um cansaço que desconhecia até aqui chegar. Claro que também me trouxeram força, conhecimento, capacidades de sobrevivência, diplomacia (ainda tenho muito que trabalhar nesta área! Um desastre!) e experiência profissional e de vida que jamais poderia acumular noutro lugar mais "normal" e concordante com aquilo que sou e em que acredito mas, de qualquer forma, estou muito, muito cansada...
 
Tenho de encontrar um bom hotel onde permitam a estadia da minha linda sereia "Sweetie" (a minha gatinha).
 
22.00h – Belo espectáculo. Por vezes, a exaustão acrescenta aspectos positivos à dança e à pessoa em si mesma que pára de se preoupar em "fazer bem" e "fazer MAIS" e apenas se deixa levar pela música. Assim foi esta noite.

Um grupo de bailarinas de Inglaterra veio ver-me e ficaram todas em estado de choque, não cheguei a perceber se foi por terem ficado positivamente surpreendidas comigo ou por terem visto que eu estava "para lá de Bagdad" e tivessem suspeitado do uso óbvio de substâncias psicotrópicas. Fiquei sem saber.

Apenas vi o grupo embasbacado a olhar para mim com uma atenção fora do normal e com cara de quem viu um extra-terrestre! Como não me conhecem, pode ser que tenham suspeitado do meu estranho estado psicológico, navegando mentalmente entre este mundo e o outro. Foi um belo espectáculo, devo dizer.
 
A moda de fumar haxixe (sem falar nos mais que comuns cigarros que os egípcios fumam às toneladas!) sempre esteve presente no Egipto mas agora está a espalhar-se a uma dimensão assustadora. Penso que as dificuldades pelas quais o país passa, a insegurança material , a injustiça social,as dificuldades crescentes do dia-a-dia contribuem em muito para este fenómeno. Ricos e pobres de todas as esferas da sociedade estão a agarrar-se ao haxixe e a outras substâncias igualmente ou ainda mais nocivas para esquecerem os problemas, as frustrações e a impossibilidade de um futuro próximo melhor. É muito triste. Tenho vários amigos meus – egípcios, libaneses e sírios – que fumam entre tres e quatro cigarros de haxixe por dia...no mínimo. E é socialmente aceite...não é agradável aos olhos de ninguém mas pressupõem-se que todos fumam publicamente ou na intimidade dos seus lares, por isso...torna-se comum.
 
Eu sugiro sempre a esses amigos que fumam para dançarem em vez de se auto-destruirem. É uma forma construtiva de fugir à realidade que nos circunda.
Eles riem-se.
 
Cairo, dia 22 de Fevereiro de 2008
 
Dia de folga. Finalmente! Depois de mais de tres semanas sem um dia de folga, esta pausa soube-me muito bem.
 
Acordei, tomei o meu chá e dirigir-me à minha livraria preferida para um pequeno-almoço nas calmas rodeada de livros coloridos, interessantes, cheios de histórias e curiosidades e tantos mundos. Sempre me senti bem rodeada de livros e é do senso comum que esta estranha bailarina anda sempre com livros atrás e lê compulsivamente. Tenho noção de que é um escape. Em vez de fumar, leio. Melhor, não é?
 
Fui até ao "hammam maghebi" (banho marroquino) perto de casa pela segunda vez...já estava a precisar. Adoro. Não só por razões estéticas e de saúde mas porque entro num mundo à parte onde só eu e o meu bem-estar interessam. Muito bom.

Publicado originalmente em  www.joanabellydance.com

Joana Saahirah
www.joanabellydance.com




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