A Sua cominidade de dança oriental

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Lulu Sabongi PDF Imprimir E-mail
Por Cia A Bailarina   

lulu_icone.jpg Nesta entrevista Lulu Sabongi conta sobre seus mais de 20 anos de carreira na Dança do Ventre, sobre suas viagens pelo mundo, sobre as bailarinas que mais admira na dança e muito mais!


 1- Lulu, 25 anos de carreira, uma série de DVDs lançados, viagens pelo mundo. Ainda há algo a provar aos eventuais críticos do seu trabalho?

Penso em provar a mim mesma algumas coisas. Não consigo pensar que tenho que provar aos outros, mas sim que tenho que ser leal com minhas próprias convicções acerca da dança. Quero provar a mim mesma que posso falar árabe fluentemente um dia, que meu livro se transformará em realidade e que conseguirei, independente do prazo, estabelecer um método que facilite a todas as mulheres o aprendizado da dança.

 2- Como lida com a questão da ‘unanimidade’ ou divergências em relação à sua arte?

Entendo que as pessoas são diferentes umas das outras, e suas impressões seguem estas manifestações. Como posso não respeitar a diversidade?

Cada um tem o direito de ter sua própria opinião. Um artista não tem que ser amado ou odiado, ou mesmo compreendido. Seu compromisso principal é agir de acordo com sua fé pessoal, e ser leal a seus próprios princípios e esse é meu objetivo. Respeitar ao outro, e respeitar a mim mesma.

 3- Sua trajetória pode ser acompanhada até por suas fotos, sempre uma ‘camaleoa’, com trajes inovadores – e muito copiados posteriormente – e um corpo que se adapta às mudanças da idade. Qual a dica que você daria para os cuidados com o corpo e a manutenção de um visual sempre atual?

Isso é tão difícil, sou como todas as mulheres, ou muitas delas. Me sinto envelhecendo e tendo dificuldades em aceitar a passagem do tempo. Usei aparelho nos dentes, por mais de cinco anos , já dançando profissionalmente, e depois passei por uma cirurgia na mandíbula, o que mudou de forma sutil mas evidente meu sorriso.

Tento me manter em forma, mas é difícil pois a disciplina é essencial, e nem sempre minha vida me permite isso. Quero ter o melhor que posso ter na idade em que me encontro, 42 anos em setembro de 2008. Não me envergonho de minha idade, nem tento esconder o ano do nascimento, mas tenho que confessar que sofro por ver o tempo, e adoraria ter controle sobre ele.

Quero voltar a forma, agora depois desta gravidez, e estar dançando novamente o mais breve possível. O carinho que recebo de pessoas como a Luciana Arruda e tantas outras bailarinas, é mesmo o empurrão que eu preciso, para acreditar que posso, que uma mulher depois dos quarenta pode tanto ou mais do que podia aos trinta. Esse é meu lema, ir em busca do que desejo, desde que não faça mal a ninguém e que possa me trazer o que almejo. 

 4- Ao assistir seu primeiro vídeo, e ao ver sua dança atual, percebo muitas mudanças. Ao comparar suas fases na dança, percebemos uma evolução e, ao mesmo tempo, uma necessidade constante de adicionar novos elementos em sua dança, como passos do Ballet Clássico e posturas utilizadas no Flamenco. É intencional? Você acha que é saudável utilizar passos de outras modalidades na Dança do Ventre? Partindo disso, o que pensa das novas tendências: fusão de diversos estilos – inclusive samba, na dança do ventre?

Penso que devemos agir com muito cuidado, para não perder as raízes da dança. Sempre estudo o tempo todo e percebo o que está acontecendo no mercado. Se na música que temos à disposição há um toque de Espanha por exemplo, por que não reagir com algo que lembre este país? Mas se não há nada que solicite esta manifestação, não há porque utilizá-la.

No caso da música clássica oriental, mesmo nas bailarinas antigas podemos notar a influencia do ballet, que na verdade nada mais é do que a dança acadêmica, que já existia no Egito antes da corte francesa, contribuir para a fama mundial do ballet clássico.

Acho que as mudanças na dança vêm de meu contato com professores e das aulas que faço sempre que possível. O corpo recebe estas impressões que viram digitais, e vão aparecer em forma de movimentos e expressão quando danço.

Não gosto pessoalmente de muitas misturas, e acho que para tudo há um limite. A fronteira é algo difícil de ser avaliado e estabelecido, mas luto por ela.

 5- Lulu, sua nova casa, Shangrila House, é um espaço maravilhoso (ainda não fui pessoalmente, mas logo, logo estarei por lá). Para quem já leu ‘Horizonte Perdido’, sabe de onde veio a inspiração do nome. Você tem esse sonho, do elixir da juventude, da vida eterna, de um lugar paradisíaco?

O nome vem exatamente desta idéia de morada dos Deuses. Meu sonho é que a casa se transforme cada vez mais num lugar de bem estar, onde as pessoas se sintam bem, que possam desfrutar da dança e da cultura. Que possam se encontrar apenas para conversar, trocar impressões, comer algo, ou simplesmente relaxar.

Eu penso sempre em alcançar a felicidade, do jeito que ela puder se mostrar para mim. Depois de tantos intercursos na minha vida, ainda acredito que podemos sim, manter viva nossa chama de criança, que é no final, o que nos faz sorrir, e aproveitar cada dia. Quando nossa criança morre simbolicamente, ou nossa juventude nos abandona, na alma e no rosto mostramos isso. O elixir da juventude está dentro de nós, cada uma tem seu Shangrila particular, basta saber acessar, para poder estar lá sempre que quiser.

 6- Conte-nos um pouco da experiência de viajar o mundo, conhecer novas culturas e observar as diferentes constituições físicas das alunas. As dificuldades e facilidades na dança são, também, regionais ?

Os países oferecem sim discrepâncias e diferenças, culturais, sociais e corporais. Cada novo lugar, é um desafio, fico nervosa, insegura, e pensando aiii, vai ver que esta é minha primeira e única vez por aqui...

Em cada país o clima, o relevo e a situação social das alunas influencia no aprendizado, e na forma com que elas usufruem da dança. Em países mais frios, é mais comum que a linha de movimentos seja mais reta, e a flexibilidade sem dúvida, é um ponto a ser trabalhado intensamente.

No Japão a concentração das meninas em aula é impressionante, eu nunca vi um grupo tão interessado e dedicado. Na República Checa, elas parecem brasileiras, um charme especial, e um molejo difícil de explicar.  É de fato uma colcha de retalhos e uma experiência incrível ser convidada por estes lugares, para compartilhar um pouco do que faço. 

7- Lulu, essa pergunta é muito pessoal, perdoe-me se vou ser desapropriada. Mas queria saber sua opinião, apesar de você não estar mais na direção da Khan el Khalili, queria saber sobre o padrão de qualidade da casa. Às vezes, tenho a impressão de que ‘quem é da casa pode tudo’ em relação a inovações de trajes, dança, shows. Nem sempre tudo é lindo ou de bom senso, na minha opinião, como já disse. Ou, se eu estiver errada, realmente, quem é da casa pode tudo, porque tem técnica a mais, uma certa ‘superioridade’ em relação ao criar e ousar? E ainda: a Shangrila House pretende, com o tempo, ter seu próprio padrão de qualidade?

 Acredito de fato que as bailarinas da casa acabam tendo uma liberdade maior nas inovações em virtude de o fazerem lá dentro, no que chamo de ambiente seguro.

Não acho tudo lindo, e nem de bom senso, e como qualquer pessoa também tenho minha própria opinião, mesmo porque o grupo é muito grande, e não posso estabelecer um padrão que coloque todas as pessoas no mesmo balaio, como dizia minha mãe.

Não acredito que quem é da casa pode tudo, de jeito nenhum e nem podemos afirmar que todas as bailarinas têm a mesma qualidade técnica. Humildade é uma das qualidades que temos que cultivar a vida toda, sem importar a que tipo de atividade pertencemos, e isso elimina a postura de superioridade...mas esta é minha opinião pessoal.

Por enquanto eu faço parte da banca da casa, e enquanto os resultados forem transparentes, e eu acreditar na justiça do processo, continuo.

Não sei se criarei um sistema ligado diretamente a mim e a escola para analisar qualidade de dança mas com certeza tenho um projeto neste sentido para a parte educacional.

8- Dentre seus mestres e professores, por favor, eleja os cinco ‘top’ e o porquê, se isso for  possível.

Vou tentar, são tantos importantes. Vamos dizer que vou colocar aqui os mais marcantes, sem desmerecer todos os outros professores e professoras, a quem devo absolutamente tudo o que sei.

1- Shahrazade, minha primeira professora, que plantou a semente da expressão e da paixão em mim. Nunca pude esquecer seus olhos, e a entrega absoluta que apresentava ao dançar. A ela devo minha conecção entre os sentimentos e os movimentos.

2- Farida Fahmy – uma rainha viva. Altamente intelectual, solista do único grupo folclórico egípcio, viajou por mais de 50 países, levando a graça e a arte de sua terra. Como professora, foi a primeira a me dizer por onde deveria ler a música, me corrigindo e limpando, quando eu já tinha 20 anos dançando. Sua generosidade e profundidade, me tocam sempre, e é alguém a quem serei eternamente grata. Ela de fato se preocupa com os rumos que a dança tem tomado nos últimos anos e se importa com as pessoas que se importam.

3- Shokry Mohamed- Não faz mais parte do mundo dos vivos, mas a sua alegria e jovialidade vão estar para sempre guardadas dentro de mim. Mesmo lutando contra um câncer que lhe retirou a fala, nunca parou de dançar ou ensinar, um professor maravilhoso para folclore, a alma do povo em forma de professor.

4- Raqia Hassan, por ser uma pessoa empreendedora, e forte que acabou criando uma das maiores manifestações mundiais da dança com seu festival, que traz pessoas do mundo todo, para se encontrarem na dança.  A estrutura é monstruosa, e muitas de minhas amigas do presente, eu encontrei em salas de aula dentro do festival. A ela devo minha ida para o mundo. Também tenho a agradecer o convite para ensinar dentro do evento, que foi muito importante para mim enquanto bailarina.

5- Gamal Seif – Depois de 24 anos dançando ter a chance de ter um parceiro de dança com uma qualidade tão alta, que me pergunto, aiiii será que dou conta? Um professor brilhante, dedicado, ativo em todos os níveis.  Artista criativo e com qualidade técnica inigualável. A ele devo meu novo projeto de qualidade para a escola no próximo ano, nossa parceria e o sonho realizado de poder aprender tudo o que quero e ter ainda por cima, um parceiro no palco para compartilhar isso em forma de performance.

9- A Dança, como tudo na vida, também sofre mudanças, adaptações, alterações. Em termos de técnica, você descobriu alguma nova super dica para facilitar a vida das bailarinas, por exemplo, em relação ao shimie ou algum outro ‘passinho’ da dança, ou dicas de estudo, que poderia compartilhar conosco?

Descobri diversas coisas para facilitar a vida, mas todas elas dependem de contato direto para poder explicar. Acredito numa dança sensorial e física, com todos os nossos sentidos envolvidos e tenho sim diversas novidades. Adoraria poder compartihar escrevendo mas não me sinto em condições de explicar isso pela escrita mas apenas pessoalmente, falando, experimentando, tentando juntas...

10- Lulu, seu momento atual- futura mamãe – foi uma grata surpresa para todas nós. Conte-nos um pouquinho de como está a gravidez, se já sabe se é menino ou menina e como é dançar, gerar, conciliar mãe, bailarina, esposa, amiga, ufa, todos os papéis, sendo Lulu Sabongi!

Conheci meu futuro marido trabalhando, olha só como a dança me dá tudo??

Nunca imaginei que nosso encontro se transfomaria numa parceria de almas, mas sabia que tinha sido muito especial. Ele morava muito longe, e tudo levava a crer que seria impossível continuar. Mas ele veio ao Brasil, amou nossa música, e nosso amor foi crescendo não muito devagar... entre a primeira visita e a decisão de mudar sua vida, apenas nove meses se passaram. Em dezembro de 2007, sabíamos que ficaríamos juntos, em janeiro fomos surpreendidos pela descoberta da gravidez.

É uma menina, seu nome é Eva, e logo logo, ela vai sair da toca.

É difícil conciliar tudo e sempre me sinto em débito com uma lista enorme de tarefas que não consigo concluir. Me sinto culpada por não conseguir responder a todos os emails, mas me recuso a ter alguém que responda por mim. Tenho vídeos a serem assistidos e devolvidos, há séculos comigo. Sou cheia de defeitos, esqueço chaves e papéis o tempo todo, esqueço aniversários, um desastre como podem ver....

Mas estou feliz, amando, acreditando na vida uma vez mais, com uma escola que está se concretizando dia a dia, uma filha por conhecer e outros 3 que já têm vida própria.

Sou mais uma mulher do mundo moderno, doidinha e tentando se acertar a cada novo dia.

11- Um momento especial para mim: ano passado, em Setembro de 2007, nos encontramos no aeroporto, lembra? Em Congonhas. Estávamos na livraria e você segurava nas mãos o livro ‘A Menina que Roubava Livros’. Mate minha curiosidade: decidiu comprá-lo? O que está lendo agora? E quais foram os livros que mais marcaram sua vida e porque?

Não comprei aquele, mas sou uma rata de livraria, compro tanto livro que vou morrer sem ter lido tudo o que adquiro. Estou lendo agora 3 livros diferentes, IBM e o Holocausto, talvez por estar com um alemão, o tema tenha me ocorrido... O que esperar quando você está esperando (sobre gravidez). A estória secreta (sobre um crime ocorrido dentro de uma universidade, envolvendo um grupo seleto de estudantes de grego clássico) e um quarto que apenas comecei – Quem somos nós?

Um livro que me marcou profundamente e foi sugerido por uma amiga querida, é "Mulheres que correm com os lobos". Este eu guardo na cabeceira e vivo relendo partes, para me lembrar de quem sou como mulher e do lado instintivo que nunca devemos esquecer.

O pequeno príncipe, foi importante quando li, O presente precioso, um livro muito pequeno mas com uma mensagem importante. El cielo protetor, a versão em Espanhol, do Céu que nos protege, um filme decisivo na minha vida....tem tantos , podia ficar aqui falando um tempão.... 

12- Lulu, você conquistou um status no mundo da dança, que com certeza também tem seus ônus. Como você se vê daqui a alguns anos? Novos projetos em vista? Quais novidades pode adiantar? E diga o que esses anos todos dançando ensinaram a você.

O ônus, como você mesma diz está ligado à cobrança das pessoas. Muitas imaginam que sou um personagem, e esquecem que sou uma pessoa comum, cheia de medos, alegrias, e intempéries... acho que esse ônus é o mais dificil de se carregar.

Penso em envelhecer dançando e ensinando. Tenho um projeto de um curso de longo termo contando com a presença de Gamal, para abarcar uma lista enorme de conhecimento envolvendo tudo relacionado a folclore, música, estilos, iluminação teatral, conteúdo cultural, e técnicas de apoio para o desenvolvimento da dança oriental, começando em 2009.  Um livro, sem data, mas que vai sairrrrrrrrrrrr, e ter saúde para fazer tudo o que quero.

Estes anos dançando me ensinaram que os limites existem para que tentemos ultrapassá-los, que a vida só vale a pena se é vivida, e que se esconder quando estamos tristes, não traz nada de bom e ainda rouba um montão de energia.

Então o caminho é continuar, dançar, se expor, chorar, rir e viver... da melhor forma o tempo que nos resta ser vivido.

Lulu Sabongi
www.lulusabongi.com.br 

Entrevista geltimente concedida pela Cia A Bailarina.
Publicada originalmente www.abailarina.com

Veja aqui alguns vídeos desta grande bailarina Lulu Sabongi:

No show de 10 anos de dança de Brysa Mahaila, parte 1:

Nas Noites do Harem:



Extraido do DVD - A Arte da Dança do Ventre:


No Festival Aida Nur (Egito) em 2006:


Em DVD:


Em outro DVD didático:


Em show em Cuiabá:

Leia aqui outras entrevistas!





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Comentários
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Ana Cristina Lima de Vasconcelos  - Meu exemplo   |06-11-08 11:45:17
avatar Eu queria dizer PERFEITA!
Mas ela é um ser humano, que apesar de dançar divinamente, continua sendo de carne e osso!
O que dizer de Lulu Sabongi?
Que ela é a minha maior inspiração na dança,que através de seus vídeos, sinto a dança fluindo em mim...
Quem dera um dia poder conhecê-la pessoalmente, mas enquanto esse dia não chega, desejo tudo o que há de melhor à ela.
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