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As mulheres e o ritmo- A função terapêutica do ritmo PDF Imprimir E-mail
Por Joana Saahirah   
joana_2.jpg“A música é uma revelação mais elevada do que toda a sabedoria e toda a filosofia”. Beethoven, carta a Bettine (1810).

A música é composta de som e ritmo. Tal como a poesia, penetra no mundo misterioso das nossas emoções e sonhos. Chega ao nosso inconsciente como uma serpente subtil e misteriosa. Toca no inefável, no irracional, no indizível, naquilo que temos de mais profundo e secreto.

A música e o ritmo em particular, despertam na nossa alma sensações e sentimentos inatos mas frequentemente esquecidos durante a nossa vida.

As mulheres sempre produziram música e os padrões rítmicos foram desde sempre uma ligação vital para a expressão espiritual das mulheres.

A percussão terá surgido no Matriarcado e servia como base para os rituais religiosos onde a dança era o principal factor. A batida da percussão era utilizada nos nascimentos de crianças, nos festejos relativos aos ciclos da Natureza e nas mortes de alguém na comunidade.

Dizia-se que era a “Grande Mãe” quem produzia as batidas da percussão para marcar o ritmo da vida. Inconscientemente, a noção de ritmo existente no corpo humano tem-se mantido até hoje e regula a nossa vida, desde o acordar até ao sono profundo.

O bater do coração da nossa mãe e do nosso próprio coração é o primeiro exemplo disso. O primeiro e mais puro contacto com o ritmo e aquele que mais facilmente esquecemos de utilizar.

A raíz latina da palavra “tempo” é “tempus” que partilha a mesma raíz morfológica com a palavra “templo” ( que ,em latim é “templum”), palavra que se refere ao espaço sagrado.

Considerada por alguns como a chave para outro mundo, a percussão possui um significado simbólico sendo a sua forma redonda uma sugestão de esferas celestiais e eternidade.

A percussão é, ao mesmo tempo, o mediador entre a humanidade e a divindade, o céu e a terra.

O ritmo dá-nos a possibilidade de integrar o plano físico e  instintivo com o plano espiritual e penetrar as ondas de energia que compõem o Cosmos.

A combinação entre a rítmica e a vibração da voz, do instrumento, da percussão e do movimento da/o  bailarina/o cria pontes verticais e horizontais de emoção entre nós e o universo. A busca mística é precisamente esta procura da ligação do ser humano ao Universo.

O cérebro humano possui 4 vibrações rítmicas mesuráveis:

1.Beta ( falar, caminhar e outras actividades diárias);

2.Alfa ( relaxamento, meditação);

3.Teta (inspiração, criatividade e percepção extra-sensorial)

4.Delta ( sono profundo).

O ritmo é energia daí não ser de estranhar que,  quando nos movemos ao som de ritmos de percussão, nós nos sintamos como se fôssemos transportados/embalados com e pelo ritmo .Um sentimento de abandono e segurança apodera-se de nós e é a isso que se chama sincronia.

O ritmo é um meio para alcançar a transcendência e a libertação que, muitas vezes, não conseguimos encontrar em nós mesmos.

A percussão foi e ainda é utilizada por todas as culturas tradicionais como processo de cura, estando até associada nalguns casos a espíritos específicos ou santos.

Os ritmos utilizados em processos de Cura são flexíveis, permitindo variações subtis na execução dos tempos e mudanças nos padrões rítmicos dos mesmos. São também multidimensionais como o pulsar da pressão sanguínea e actuam sobre as batidas cardíacas.

A dança ao som da percussão tem o poder de restaurar o nosso sentido de equilíbrio, acalmando o sistema nervoso. Estados emotivos como o medo ou a alegria são facilmente expressos em termos rítmicos; processos psíquicos despoletados pela energia, tal como a angústia ou a depressão podem banir-se com uma activação rítmica exterior ao corpo. Os hemisférios direito e esquerdo do cérebro unem-se neste processo e acontece uma integração mais profunda que expandirá a nossa consciência.

Nos rituais tradicionais de dança ao som da percussão, o conteúdo da música depende da comunidade que a está a interpretar e da/o bailarina/o que a incorpora. Os bailarinos respondem aos estímulos dos percussionistas e estes respondem aos primeiros. O ritmo imprimido no final de uma música é geralmente aumentado de forma gradativa até chegar um ponto de extâse em que o a dinâmica do ritmo é tão acelerada que “obriga” a/o bailarina/o a um estado de expressão altamente energético e libertador.

Numa música podem ser executados vários ritmos mas apenas um de cada vez. O que acontece é que são acrescentados ornamentos e variações que enriquecem a base rítmica e que permitem uma maior criatividade a quem dança. Ao mesmo tempo, a pessoa que está a interpretar a música tem de identificar a base rítmica e utilizar as variações sem perder a primeira. Para um/a Bailarino/a de “Dança do Oriente” as possibilidades de utilização da música são infinitas. Pode acompanhar as vibrações da percussão com as ancas (o “shimmy” é um dos movimentos mais utilizados para estas ocasiões) e, simultaneamente, interpretar a melodia ou tema da música com um movimento de braços e mãos (o movimento da serpente é frequentemente utilizado) bastante lento e relaxado, podendo ainda inclinar o tronco em várias direcções...

As pausas na música e na dança são tão importantes como o som e o movimento visto fazerem parte do ritmo. É a pausa, o movimento suspenso, o silêncio inesperado e o final de uma frase rítmica que criam o efeito de hipnotismo. O poder da pausa/intervalo pode ser representado pelo tempo e espaço  que nos é dado para sentir e deixar fluir a energia para além do espaço físico me que nos encontramos.

No entanto, enquanto as batidas e os tempos rítmicos podem ser medidos e contados, na dança isso não é suposto acontecer. Deverá haver sempre um esforço de interiorização dos ritmos por parte de quem dança, até que chegue um momento em que farão parte integrante da nossa pulsação e  expressão emocional.

Publicado originalmente em www.joanabellydance.com
Joana Saahirah
www.joanabellydance.com

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