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Shaide Halim

ImageA bailarina Shaide Halim, precursora do Estilo Tribal no Brasil, gentilmente nos cedeu esta entrevista. Conheça melhor o trabalho desta bailarina, professora e grande divulgadora da dança no Brasil.

1. Com quem você começou seus estudos na dança tribal?

Meu primeiro contato com o Tribal foi em 1990, no Central Park, em Nova York, numa apresentação da Rakkadu Gipsy Caravan. Na época eu ainda não tinha nenhum conhecimento em dança do ventre, que só comecei a estudar em 1994, mas já estudava ballet clássico, jazz e dança afro. Minhas professoras de Tribal foram Zoe Ártemis e Jill Mc Pherson, mas contei com o aconselhamento de Carolena Nericcio (Fat Chance Belly Dance), Sharon Moore (Infusion) e Maja Nile. E foi a partir da união do estudo prático e do aconselhamento teórico que comecei a descobrir toda a amplitude do estilo e a me arriscar em criar minha própria linha de trabalho.

2. Atualmente quem são suas bailarinas prediletas na dança tribal?

A Maja Nile é uma das minhas prediletas. Ela é uma verdadeira fonte de inspiração, por ter um conhecimento amplo não só em dança do ventre, mas também em flamenco e dança indiana, que são danças muito utilizadas nas minhas fusões. Mas também gosto do Fat Chance Belly Dance, Awalin, Fringe Elements e Urban Turban.

3. Fale um pouco mais da história da dança tribal

O Tribal surgiu nos EUA, nos idos dos anos 70, criado pela bailarina Jamila Salimpour. O estilo dela era diferente do realizado hoje, mas a nomenclatura Tribal foi associada à dança do ventre com o surgimento ed seu grupo, Bal Anat. Jamila desenvolvia coreografias que utilizavam acessórios das danças folclóricas e passos característicos da dança oriental, baseando-se em lendas tradicionais do Oriente para criar uma espécie de dança-teatro, acrescentando a isso um figurino inspirado no vestuário típico das mulheres orientais – na verdade um apanhado de trajes e acessórios de diversas culturas do Oriente, como países árabes, Índia, Paquistão, Tajiskistão, entre outros.

Nos anos 1980, Carolena Nericcio, aluna de Marsha Archer, que por sua vez era discípula de Jamila Salimpour, renovou o conceito de dança tribal criando o ATS (american tribal style). Carolena e sua trupe Fat Chance Belly Dance trouxeram ao Estilo Tribal a característica mais forte do ATS (American Tribal Style -Estilo Tribal Americano): a improvisação coordenada. Essa improvisação parece uma brincadeira de “siga o líder” e baseia-se numa série de códigos e sinais corporais que as bailarinas aprendem, trupe a trupe. Esses sinais indicam qual será o próximo movimento a realizar, quando haverá transições, trocas de liderança etc. Ainda falando das inovações trazidas por Carolena, a nova postura, oriunda na dança flamenca, e as posições corporais diferenciadas na execução dos passos dão amplitude aos movimentos, sendo então melhor visualizados pelo público.

Nos anos 1990, o Estilo Tribal passou a demonstrar com mais força a presença da Dança Indiana, do Flamenco e mesmo das técnicas de Dança Moderna e do Jazz Dance. Nasce então o Neo Tribal. Esse sub-estilo já não se mantém preso ao sistema de sinalização do ATS, trabalha com peças coreografadas e ganha liberdade com a adição de novos movimentos, inovações cênicas, acessórios e mesmo na composição do figurino.

Atualmente o Tribal continua em constante evolução. Já existem grupos que utilizam elementos de jazz dance, hip hop e técnicas de vitrine-viva em suas composições coreográficas. Outros grupos seguem uma linha diferente, onde a dança do ventre volta a ser utilizada sem fusões, apenas utilizando o figurino característico tribal.

Aqui no Brasil nós utilizamos como base a mistura cultural de música, movimentos de dança e figurino, proposta no Neo Tribal, mas adicionamos elementos da nossa cultura nacional, por meio de danças folclóricas brasileiras, além de buscarmos inspiração em outras diversas modalidades como dança moderna e contemporânea, dança afro, dança-teatro e contato improvisação, por exemplo.

4. No Brasil como está o crescimento da dança tribal?

Cia Halim, minha trupe tribal, iniciou seu trabalho de divulgação em junho de 2001, com cursos dessas modalidade e, em 2002, com a apresentação do primeiro espetáculo exclusivamente Tribal do Brasil. De lá pra cá, são mais de 5 anos de árduo trabalho para divulgar essa nova modalidade e, principalmente, lidar com o preconceito que geralmente existe quanto a novos trabalhos. Hoje em dia, com a entrada no Brasil de diversos dvds de grupos de estilo tribal norte-americanos, auxiliado pela divulgação maciça de vídeos em sites como o youtube, o estilo tribal ganhou maior visibilidade e adeptos.

Acredito que ainda estamos engatinhando nessa área, mas como já acontece com outras modalidades de dança, os bailarinos brasileiros sempre conseguem destaque e reconhecimento por trabalhos criativos e inovadores.

5. Conte-nos sobre o traje.

Inicialmente, o figurino utilizado por Jamila Salimpour e sua trupe cobria totalmente o torso da bailarina, sendo composto basicamente por djellabas ou galabias.Alguns grupos ainda preferem se manter fiéis à esse estilo de roupas. Com o nascimento de novas trupes e novos subestilos, o figurino foi se modificando. Os trajes mais utilizadoss são compostos por saias longas e rodadas (sem aberturas nas laterais), calça pantalona ou salwar (bombacha indiana), choli (blusa tradicionalmente utilizada pelas mulheres indianas embaixo do sari), sutiã por cima da choli, xales, cintos, adereços, moedas e borlas (os famosos pompons!) para incrementar o traje e dar maior visualização aos giros e tremidos.

Os grupos mais modernos estão reaproximando o figurino tribal ao da dança do ventre tradicional, voltando ao traje duas peças (sutiã e cinturão), mas mantendo ainda o visual carregado de moedas e pompons.

6. Que ritmos são usados para dança tribal?

O tribal abre uma vasta gama de possibilidades. Você pode explorar os ritmos árabes, hindus, aflamencados. Pode usar músicas já especificamente fusionadas, facilmente encontradas em trabalhos de world music. Hoje em dia também é comum ver o uso de músicas orientais ou fusionadas, mas com looppings e batidas eletrônicas, o que denota a evolução e a modernidade de um estilo que está eternamente se reciclando.

7. Existe algum grande festival mundial de dança tribal? Qual? Onde?

O maior festival de dança tribal que tenho conhecimento é o Spirit of the Tribes, que a Maja Nile realizada anualmente em Miami, Flórida. Mas acredito que atualmente diversos festivais aconteçam em várias partes do mundo, não apenas nos EUA, o berço do Estilo Tribal.

8. Sabemos que você é uma bailarina de tribal, oriental, flamenco e dança moderna. O que você acha que as bailarinas podem melhorar na dança oriental? Alguma dica importante?

A dança não é algo que se desenvolve de maneiras diversas apenas pela influência cultural. A dança é uma manifestação individual, portanto, cada bailarino é único. Sua dança pode até ser imitada, mas nunca ninguém será igual a você. Quando dançamos, manifestamos quem realmente somos, como pensamos, como vemos o mundo, como sentimos a música – tudo isso, claro, utilizando o repertório técnico que estudamos – que também é único, pois ninguém nunca realiza os mesmos estudos ou vivencia esse conhecimento da mesma maneira.

Posso dizer que, no meu caso, estudar dança indiana só tem aumentado minha capacidade de expressão. O flamenco me acrescenta força e energia. A dança do ventre me traz suavidade aos movimentos e uma percepção musical muito rica. A dança contemporânea explora meu potencial criativo. Acredito que tudo o que estudo me serve como elemento para criação e para me dar uma nova consciência corporal.

Cada modalidade tem uma particularidade e conhecer de tudo um pouco aumenta nosso repertório de movimentos e nos faz entender que dança é uma só coisa, universal, que independe de modalidade, de cultura, de região. E o Tribal, por lidar com diversas manifestações culturais e tantas modalidades com diferentes características, só enriquece o bailarino – seja técnica ou criativamente.

9. O que você acha imperdoável numa bailarina, seja ela de tribal ou oriental?

Não posso dizer que é imperdoável, porque cada pessoa tem seus motivos para seguir por um ou outro caminho, mas o que me incomoda é exatamente quando um bailarino perde seu próprio referencial, sua individualidade, e passa a tentar imitar o trabalho e/ou personalidade alheia.

Como já disse na questão acima, um bailarino é único em sua expressão e seu potencial criativo. Copiar o trabalho alheio demonstra insegurança de criar seu próprio estilo e falta de dedicação ao estudo, pois só com amplo repertório somos capazes de exercitar nossa criatividade. Além disso, se a diversidade de estilos é maior, o público só tem a ganhar!

10. O que você acha que as bailarinas devem realmente se preocupar para se tornarem profissionais?

Com o estudo, sempre. E estudo vai além da parte técnica e prática. A teoria também é importante, independente da modalidade que desejemos nos aprofundar.

Um profissional com conhecimento superficial e limitado tende a desenvolver um trabalho que, em algum momento, vai estagnar. Estudar deve se tornar uma preocupação e ocupação constante na vida de um bailarino. E olhar além das fronteiras também é muito importante. Não basta conhecer sua área. Dança é algo que se realiza de diferentes formas e saber entender e conhecer outras danças, outros estilos, outras visões artísticas, só enriquece o nosso próprio trabalho.

Uma dica que dou aos meus alunos é levar o estudo para o dia-a-dia. Tudo o que vivemos pode também se tornar uma fonte de aprendizado. Por isso, assistir a espetáculos de dança, seja qual for a modalidade, ver vídeos, compartilhar o que sabe com seus companheiros de classe, ouvir muita música, dançar diariamente, explorando nossos sentimentos de maneira mais natural...cada momento que transformamos em dança é um novo elemento que ganhamos para explorar mais adiante e transformar em coreografia ou improviso.

11. Existem algumas bailarinas mundiais que sinceramente não deveriam ser referência de estudo. Como você explica o “fenômeno” de muitas atribuírem a elas status que não deveriam ter, levando em consideração a expressão e ate mesmo trajes inadequados e técnica duvidosa.

É uma questão delicada, mas acredito que isso se deve a um excelente trabalho de marketing executado pela assessoria desses “fenômenos”. Não consigo ver outra explicação para isso. Mas se faz sucesso, se deve também a falta de bom senso dos expectadores, que costumam consumir qualquer coisa que aparece. É uma realidade triste, pois quanto mais espaço se dá a trabalhos e profissionais de conduta duvidosa, menos se valoriza o de profissionais realmente competentes.

12. Deixe uma mensagem às bailarinas que pretendem se especializar em dança tribal.

Tribal não é simplesmente uma dança do ventre com uma roupa diferente. Isso é algo que precisa ser compreendido. É necessário conhecer diferentes linguagens e saber utilizar os movimentos de acordo com o que pede a música. E o conhecimento técnico nos ajuda a lidar com essas formas diversificadas, a absorver as sutilezas entre as modalidades que compõem esse estilo.

O flamenco, a dança indiana, a dança do ventre, por exemplo, compartilham algumas semelhanças, mas ao mesmo tempo têm inúmeras diferenças. E é exatamente esse jogo de misturar, de brincar com diferenças e semelhanças, de não definir onde começa uma modalidade e onde termina a outra que faz do Tribal uma dança tão especial. Uma dança onde tantas manifestações culturais podem ser vistas, mas que, juntas, se transformam em uma só dança. Uma dança universal, sem fronteiras, que explora o inconsciente coletivo, algo mais subjetivo do que podemos expressar com uma só linguagem corporal regionalizada. Algo que já sabemos dançar antes mesmo de pisar pela primeira vez em sala de aula – e que vamos redescobrindo a cada nova aula, a cada música dançada, a cada novo movimento explorado.

Entrevista publicada originalmente em http://www.shaide.tk

shaidehalim@gmail.com


Conheça mais o trabalho desta  grande bailarina assistindo aos vídeos abaixo:


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Shaide Halim em Salvador (Bahia), no Espetáculo Massala. Dia 5 de Maio de 2007.

 

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Shaide Halim e Nubia, em apresentação de Dança Tribal, no 5o Encontro das Deusas, da Rede Hayat El Helwa.

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Shaide Halim na Mostra Internacional Bele Fusco.Percussão Tribal com o músico Renê Dalton.


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