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Málika

MalikaA bailarina e professora Málika, que associa a Dança do Ventre ao método de educação somática de Feldenkrais, gentilmente nos concedeu esta entrevista. Saiba mais sobre seu trabalho!


1- Como se deu seu primeiro contato com a Dança do Ventre? E como ela se tornou sua profissão?

Comecei os meus estudos com o balé clássico em 1974 e cursei, desde então, inúmeras modalidades de dança, sempre buscando aprender mais, dançar mais. Com o objetivo de melhorar a minha performance, a partir de  1984,  me submeti a sessões de técnicas de consciência corporal.

Por volta de 1985, numa dessas sessões/aulas, a terapeuta propôs um movimento que me encantou e me cativou definitivamente: era o movimento mais bonito, harmônico, orgânico e maravilhoso que eu já havia feito ! Eu queria mais. Quando perguntei para ela que movimento era aquele, ela respondeu que era um movimento da dança do ventre.  Imaginem só: era um “oito "desenhado com os quadris, na horizontal, para fora”. Foi amor à primeira vista. A partir daí, comecei a fazer aulas de dança do ventre, além de todas as outras aulas de dança e "trabalhos corporais".

Em 1990, eu ainda trabalhava como advogada em uma grande empresa ( eu havia cursado direito na PUC, tendo chegado a fazer mestrado ), mas a paixão pela dança, especialmente a dança do ventre, me fazia querer sempre mais, aprender mais, aperfeiçoar, fazer melhor, com maior precisão.

Eu já fazia algumas apresentações e o nome artístico, dado pela Laila, caía como uma luva - afinal eu trabalhava como assessora jurídica da presidência - e, naquela época, as pessoas não sabiam muito bem o quê era a dança do ventre.

Em 1990, começar a dar aulas foi uma decorrência natural do caminho,  foi a sequência da busca por mais  - para ensinar é preciso saber mais e mais e quando ensinamos, aprendemos muito mais do que ensinamos: por que a aluna X ainda não conseguiu entender o movimento Y? Como posso ajudar?

Em 1994 deixei a empresa e decidi que a tese de mestrado seria substituída por um livro sobre a dança do ventre, fruto do meu caderno de estudos. A paixão prevaleceu e passei a dedicar-me apenas à dança e ao estudo das técnicas corporais.

2- Você gosta de estudar e de escrever sobre a Dança do Ventre, o que se nota pela quantidade de artigos que já publicou no seu site e também pela publicação do livro.  Qual a relação que você vê entre estudo e Dança do Ventre?

Verdade, você percebeu com muita clareza. Eu gosto muito de estudar, sinto uma necessidade enorme de conhecer, entender e aprofundar cada vez mais.

Essa é uma pergunta extremamente complexa. Para o meu desenvolvimento foi, e ainda é, essencial estudar, para mim não existe caminho mais seguro para melhorar a dança do que o estudo.

Mas, pode ser que para outras pessoas não seja, pode ser que elas não sintam essa necessidade, essa curiosidade que nunca se satisfaz, o caminho pode ser outro.

Acredito, ainda, que depende do objetivo que cada uma tenha: ser bailarina  ou professora (ou ambas). Mas esse tema super interessante e importante:  bailarina X professora vem daqui a pouco, em outra pergunta.

Bom, mas o que é estudo?

Entendo por estudo (essa "classificação" é apenas didática)

a) "parte teórica"

- compreender melhor os inúmeros movimentos do corpo humano: como nos mexemos? O quê acontece com o nosso corpo quando, por exemplo, andamos, sentamos etc? Que músculos participam de cada movimento? Todo mundo senta igual? Bom, aí complicou: se o corpo humano é um só (no sentido que todos possuímos X ossos e X músculos etc), por que os indivíduos não se movem todos iguaizinhos????

- compreender melhor os movimentos da dança do ventre: quais são os músculos que participam da execução de um "oito p/ fora na horizontal, desenhado com os quadris"? são os mesmos de um "oito p/ fora na vertical"?

- compreender melhor os ritmos

b) "parte prática"

- compreender como eu me movimento  - consciência corporal  - para poder compreender melhor os outros

- treino dos movimentos da dança

As profissionais de Dança do Ventre no Brasil costumam estudar?


Atualmente, muitas profissionais  -  bailarinas e professoras  - estão estudando. Tenho orientado e supervisionado alguns trabalhos e estudos extremamente interessantes e sérios e, também, tomado conhecimento de tantos outros.


3-   Você começou a estudar o método Feldenkrais depois que já dançava. O que lhe levou a estudá-lo? Como se deu este início?

Na minha busca por técnicas corporais, especificamente as de conscientização corporal, em meados de 1987 fiz uma vivência do Método Feldenkrais. Do mesmo modo que eu havia me apaixonado por aquele primeiro "oito" da dança do ventre, o Método me encantou.

Passei a submeter-me a sessões individuais, depois em grupos. Com o tempo, fui constatando que o Método proporcionava não apenas uma percepção mais apurada do meu corpo e de como eu me movia no espaço, mas, também, e, principalmente, facilitava o aprendizado de movimentos novos além de uma depuração, uma enorme melhoria na qualidade da execução dos movimentos e passos de dança que eu já conhecia.

Continuei com as sessões por 10 anos. Nesse ínterim, li "Consciência pelo Movimento" e o "Caso Nora".

Em 1997 foi criada a AFB - Associação Feldenkrais do Brasil, com o objetivo de divulgar o Método tão pouco conhecido aqui no Brasil e de qualificar profissionais para trabalhar com o Método.

De 2001 a 2003 participei do primeiro curso para Instrutores e em 2004 e 2005 fiz a primeira formação para Professores e ainda continuo estudando, já que o Feldenkrais desenvolveu mais de 1000 lições (seqüências de exercícios) com o objetivo de reabilitar e melhorar os centros de aprendizado do cérebro.

4-    No que o método Feldenkrais influencia a Dança do Ventre? No que ele pode contribuir?

Mariana: vou me permitir transcrever aqui um trecho de um comentário que eu fiz para o Informativo da AFB - Associação Feldenkrais do Brasil, cujo título é: - "Aprendendo a dançar com o método de conscientização do movimento, ou de educação somática de Moshe Feldenkrais".

Moshe Feldenkrais disse que “movimento é vida: sem movimento a vida é inconcebível”. Se cantar é o “superlativo” de falar, podemos afirmar que dançar é o “superlativo” de andar e de movimentar-se.

Desde que comecei a submeter-me a sessões individuais e em grupo desse método, há mais de dez anos atrás, logo percebi e senti que o meu desempenho na dança - e fora dela também, nas ações corriqueiras do cotidiano - melhorou consideravelmente. Fiquei muito intrigada, na ocasião, porque o método estava agindo não apenas facilitando o aprendizado de novos movimentos, mas, também,  melhorando a qualidade e a “fluidez” de movimentos que já haviam sido incorporados ao meu “repertório”.

Comecei, então, a me perguntar como e porque isso ocorria. Não obtive uma resposta imediata – nem sei se a tenho agora, depois de vários anos de trabalho com o método, mas eu sei que ele “funciona”.

“Funciona” porque nos enriquece de recursos, porque nos coloca frente a frente com o nosso modo próprio, individual e único de nos organizarmos para fazer determinados gestos ou movimentos; nos oferece a possibilidade de realizarmos alterações, que sejam mínimas, médias, grandes ou enormes (embora todas extremamente significativas) nesse modo e nessa organização; e funciona, principalmente, porque nos ensina a aprender.

Fiquei tão empolgada e fascinada com “as minhas descobertas” que comecei a utilizar algumas lições do método e, essencialmente, a sua “filosofia”, ou concepção nas minhas aulas de dança do ventre, tendo obtido resultados muito gratificantes com as alunas, no sentido de obtermos um conhecimento mais preciso do processo de organização para a execução dos movimentos da dança do ventre, seguido de um aprendizado mais efetivo e de uma precisão mais acentuada dos mesmos movimentos...

Em suma, o Método Feldenkrais potencializa o aprendizado e o aperfeiçoamento dos movimentos da dança do ventre, aprimorando-os pela diferenciação, ou seja, facilitando o reconhecimento das "partes" do corpo que "não têm nada a ver" com o próprio movimento e a conseqüente percepção dos esforços desnecessários, tornando os passos da dança mais "limpos", mais bonitos e realizados com o quantum de "força" necessária.

5-    Você foi uma das primeiras, senão a primeira professora de Dança do Ventre no Brasil a associá-la a um outro trabalho corporal, no caso o método Feldenkrais. Como foi e como tem sido a aceitação deste estudo no meio da Dança do Ventre?

"Feld o quê????" é uma das frases que eu mais ouvia quando falava do meu trabalho para as pessoas. Ainda ouço, mas bem menos.

As praticantes da dança, num primeiro momento, estranham um pouco essa abordagem, mas quando eu explico e, melhor ainda, quando elas vivenciam uma "lição" do Método ou uma aula de dança do ventre com a aplicação do Método, a aceitação tem sido muito boa porque o Método aplicado à dança do ventre facilita, ao extremo, o aprendizado dos "passos" e movimentos.

Tive várias alunas que já haviam feito aulas anteriormente  (muito bem conduzidas e orientadas) e que apresentavam dificuldades ou, muitas vezes, a total impossibilidade para executar determinados movimentos. Com a aplicação do Método, elas entenderam quais eram as suas dificuldades e puderam superá-las.


6-    Você foi a primeira a lançar um livro no Brasil sobre Dança do Ventre, numa época em que havia pouco material escrito sobre o assunto. Fale-nos mais sobre essa fase, sobre o início e o lançamento do livro.

Mariana: acredito ser importante deixar registrado aqui a evolução da dança do ventre no Brasil, que dará uma idéia do panorama da época e, também, já abrange parte da resposta da pergunta 8 abaixo. (como os brasileiros viam e agora vêem a dança do ventre).Tomei a liberdade de transcrever um resumo do meu artigo "O Desenvolvimento e o crescimento da dança do Oriente (dança do ventre) no Brasil"

"Há alguns poucos anos – e estamos falando da década de 80 e início de 90 – a Dança do Oriente, ou Dança do Ventre, era muito pouco conhecida e difundida no Brasil, fora dos múltiplos centros das colônias árabes...

Aos olhos e ouvidos do povo brasileiro, não apenas as inúmeras danças árabes, étnicas e “do ventre”, mas também a música raramente chegava....

Para uma estudante, uma pesquisadora, uma professora ou profissional conseguir o material básico e essencial para seus estudos, pesquisas, aulas ou apresentações era uma verdadeira odisséia. Comprar discos de vinil ou CDs e fitas originais de músicas árabes no Brasil, naquela época, era tarefa árdua e impossível... Para confeccionarmos nossas roupas, éramos obrigadas a recorrer e socorrer-nos de bordadeiras especializadas em roupas de alta costura, ou até mesmo de fantasias... , e, ainda das avós, mães e tias. Os modelos eram “tirados” da imaginação e de poucas fitas de vídeo contendo montagens de apresentações, shows e até pequenos trechos de filmes onde apareciam as famosas bailarinas egípcias.

Quanto à literatura, distinta não era a situação. O Brasil não havia produzido nenhuma obra sobre o assunto e escassas eram as publicações em inglês e francês. Vale lembrar que estamos falando da “era” anterior à Internet...

As bengalas eram improvisadas com bastões de bambu. Candelabros nem pensar. Espadas, então... Voltando dos Estados Unidos, em 1992 trouxe uma espada na minha bagagem. Fui barrada na alfândega, o fiscal alegava que era uma arma e eu que era um “instrumento de trabalho”. Para evitar que a minha espada fosse confiscada, não hesitei: coloquei-a na cabeça e saí dançando para espanto geral.

Obedecendo à lei da oferta e da procura, o mercado de trabalho para as poucas profissionais, no que se refere ao ensino, era escasso...

Naquela mesma viagem, fui surpreendida pelo enorme “boom” da dança do ventre nos Estados Unidos. Salas de aula fervilhavam lotadas, com professoras e professores americanos e muitos árabes que lá residiam e ensinavam sua belíssima arte a um público interessado e aplicadíssimo.

Lá encontrei à disposição das americanas e visitantes um vasto material especializado: publicações bimestrais, revistas, vídeos didáticos e de performance etc que eram também comercializados num verdadeiro mercado oriental que acontecia durante festivais onde se apresentavam as melhores dançarinas vindas de todos os cantos daquele País, além de desfiles de roupas folclóricas e para belly dance.

As performances nunca deixavam a desejar... A grande maioria das bailarinas esbanjava experiência, com idades superiores a 45/50 anos. Uma das apresentações que mais me impressionou foi uma dançarina que se equilibrava somente sobre três taças de champagne (daquelas antigas) fazendo inúmeros shimies.

Bem, é claro que essa “arábia americana” também chegou até nós, posteriormente, modificando radicalmente a posição que a dança do ventre ocupava em nosso País. Em meados da década de 90, já possuíamos, à nossa disposição todo o material necessário para a dança do ventre em quantidade e qualidade, até excelentes designers, costureiras e costureiros especializados em criar os mais refinados e luxuosos trajes...

Jornais e revistas especializados em dança já abriam espaço para a dança do Oriente circulando, algumas vezes, com encartes especialmente dedicados a ela, ao passo que já ensaiávamos algumas publicações exclusivas. A divulgação na mídia começou a aumentar: programas de TV e rádio e internet.

Passaram a acontecer, seguindo os passos americanos, eventos totalmente voltados para a dança do ventre, com apresentações de grupos profissionais e amadores, concursos, desfiles e comércio.

Diante desse novo panorama, o mercado alterou-se. O interesse e a procura pela dança do ventre aumentaram substancialmente e a oferta de cursos também. No final da década de 90 estimava-se por volta de 5000 mulheres praticantes, fato que passou a justificar a vinda de professores, professoras, bailarinas, coreógrafos e músicos americanos, egípcios, turcos e libaneses.

Mais recentemente, constatamos o “efeito Clone”: a novela popularizou a dança do ventre. Ela teve o enorme e incontestável mérito de mostrar com propriedade a toda a população brasileira essa arte milenar, que até então era totalmente desconhecida da grande massa. Abordou os aspectos culturais e familiares, inserindo a dança no contexto que lhe é próprio, com dignidade e alegria.

Munida de tais conhecimentos e esclarecimentos, a população passou a apreciar muito não só a dança, mas também as músicas, e, – fenômeno que eu considero dos mais relevantes e importantes para todas e todos que trabalham, de algum modo com a dança do Oriente – possibilitou à população diferenciar um bom trabalho de uma tentativa precária de imitação dessa maravilhosa arte que sempre nos apaixonou e uma profissional de pessoas que, infelizmente, julgam-se aptas a ministrar aulas sem capacidade técnica para tanto.

O livro

O livro surgiu, como já disse acima, das minhas anotações em um caderno de estudos. Num determinado momento eu percebi que tinha ali um material que eu acreditava ser bem interessante e que poderia compartilhar para ajudar a difundir a dança do ventre, levantar  questões - algumas bem polêmicas - sobre a técnica da dança, como por exemplo executar os movimentos da bacia, dos quadris com os joelhos esticados, que é super prejudicial (não pretendo aqui entrar em questões anatômicas etc).

Não sei se eu fui a primeira professora que associou a dança a um trabalho corporal, mas, com certeza, fui a primeira a "levantar a bandeira" dos joelhos flexionados para os movimentos sinuosos, shimies etc da bacia.

O livro foi lançado na Bienal em 1998, antes do "Clone" e está esgotado. Durante 2 semanas minhas alunas fizeram  apresentações diárias, sempre abrilhantadas por uma profissional que encerrava o "show". Lembro sempre com muito carinho dessas alunas, algumas das quais tornaram-se minhas amigas e, especialmente, das profissionais. Foi uma experiência muito gratificante.

Confesso que para uma 2ª edição gostaria de melhorá-lo e acrescentar os conhecimentos que adquiri depois.

7-     Como você definiria a Dança do Ventre?

Quem sou eu para definir uma arte milenar?

Posso falar mil coisas, falar sobre a provável origem histórica, dizer que é uma dança belíssima, feminina, (não estou afirmando que os homens não possam dançar) , visceral até,  dizer que tudo que todas nós já sabemos - que  a dança do ventre traz auto-estima para as praticantes, que melhora o condicionamento físico, que melhora a postura, as cólicas menstruais, atua na prevenção de doenças etc, etc, etc.

Mas, com certeza, não me julgo capacitada para defini-la.

O que ela significa pra você?

Essa é a resposta mais simples: para mim, dançar é igual a respirar, impossível viver sem.

8-    Como os brasileiros e brasileiras vêem a Dança do Ventre?

Mariana: não resisti e vou transcrever um trecho de outro artigo: A dança do ventre e o “efeito clone”

Com certeza, o "Clone"  levou às casas brasileiras muitas informações sobre a música e a dança árabes, entre elas a dança do Oriente, ou dança do ventre.

A grande maioria do povo brasileiro vivia no total desconhecimento da música e danças árabes. As poucas informações que haviam chegado, pouco antes da novela, dirigidas à grande população, foram totalmente deturpadas: loiras (vejam bem, eu não tenho nada contra as loiras) em trajes diminutos (não tenho nada contra trajes assim) “rebolando” (também não tenho nada contra rebolar )... Lembram do tchan?
Só que daí até a dança do ventre existe uma longa distância... Só que o povo não sabia disso...
E agora sabe!

Vou contar um “causo” verídico, que aconteceu por volta de 1990 e que – tenho certeza – não teria ocorrido atualmente.

Eu ministrava aulas numa academia e recebi um telefonema de uma moça que se dizia bailarina. Ela iria fazer uma apresentação e precisava de duas alunas “para fazer pano de fundo para a dança dos 7 véus” – foi exatamente isso que ela disse. Eu achei essa estória muito estranha. Perguntei sobre a pessoa que estava organizando a tal apresentação, a “bailarina” me passou o nome da empresária e o telefone. Fui conversar diretamente com essa empresária: mulher simpaticíssima, muito educada e elegante. O evento era uma comemoração em sua empresa. Chamei uma amiga minha, profissional super talentosa.

No dia e horário combinados eu e minha amiga encontramos a “bailarina”. Fomos muito bem recebidas pela empresária que havia, inclusive, adaptado um enorme e confortável camarim para nós.
Eu estava com um pequeno gravador – aprendi com a minha amiga – para ouvirmos as músicas que iríamos dançar, que haviam sido escolhidas pela “bailarina”.

Surpresa: as músicas não tinham nada a ver com dança do ventre........... eram músicas árabes sim, mas eram músicas do “folclore” marroquino.....

Como era praticamente impossível dançar dança do ventre com aquele tape, o meu marido foi em casa “voando” buscar outras músicas.

Percebemos que a “bailarina” já estava um pouco “sem graça”. Trancou-se no toalete do camarim com uma auxiliar para colocar os seus trajes que ela havia trazido numa grande caixa, que estava fechada até então – bem ao contrário dos nossos, abertos e espalhados ordenadamente pelo enorme camarim. Eu e a minha amiga nos aprontamos e ficamos ouvindo as músicas, selecionamos uma para entrarmos com véus, uma segunda para tocarmos snujs e um solo de derbak para finalizarmos, se não me falha a memória.

SURPRESA: abre-se a porta do toalete !!!!!!!!!  Dali sai a auxiliar seguida da “bailarina” que usava um suquini de lamê azul turquesa (disso eu nunca mais vou me esquecer) com uma meia dúzia de medalhinhas penduradas no “soutien” e outra meia dúzia de medalhinhas penduradas no suquini, complementado por sete tufinhos de tule azul turquesa também, é claro, presos em losango, formando uma mini saia totalmente transparente, que ela pretendia ir tirando um a um, como se fosse um strip tease (não tenho nada contra striptease) para terminar a dança dos 7 véus com um suquini de lamê azul turquesa...

Até hoje eu ainda não sei quem teve a maior surpresa, ela ou nós duas. Quando ela saiu, com ar quase triunfante (lembrem-se que ela já estava um pouco sem graça por causa das músicas) detrás da auxiliar, encontrou eu e a minha queridíssima amiga - desculpem a falta de modéstia - muito bonitas, com trajes caprichados, escolhidos com cuidado e carinho.

Ficamos nos olhando, apatetadas........e estaríamos assim até hoje não fosse uma funcionária da empresa nos avisar que era hora do show!

A “bailarina” já bastante sem graça, quis inverter a ordem da nossa entrada e fez questão de ficar por último, dizendo que havia mudado de idéia e que não iria mais fazer a dança dos 7 véus. Até hoje eu me pergunto se ela sabe o que realmente é essa dança.........

Entramos em cena. O lugar era grande. Eu e a minha amiga, acostumadas a dançarmos juntas, cruzávamos o salão sem embaraço, trocando de lugar e muitas vezes alternando os toques dos snujs.

A “bailarina” parecia grudada ao chão, tinha uma dificuldade enorme em deslocar-se, fazia movimentos bruscos, brutos e grosseiros, tentando fazer algo que nem de longe se assemelhava à dança do ventre. Acho que se ela sambasse não teria ficado tão ruim...

Terminamos a apresentação, voltamos ao camarim. A empresária foi até lá, passou reto pela “bailarina” abraçou–nos, beijou-nos ainda suadas mesmo, agradeceu efusivamente, elogiou o nosso trabalho e convidou-nos para continuarmos na festa. Virou-se para a “bailarina”, encarou-a detidamente, sem dizer uma única palavra, mediu-a dos pés à cabeça e retirou-se do camarim...

Essa empresária foi enganada pela moça que se dizia bailarina e percebeu isso ao ver, lado a lado, uma “imitação” grotesca da dança do ventre e a dança do ventre, que ela, até então, desconhecia.

Com certeza, hoje, depois da novela, esse fato teria pouquíssimas chances de acontecer: as pessoas já possuem uma outra concepção da dança do ventre e já conseguem diferenciá-la do samba, do axé, de outros ritmos e suas respectivas danças. Perceberam que a dança do ventre tem uma música própria, árabe.  Perceberam que a dança do ventre não usa fio dental. Perceberam que a dança do ventre é do ventre e não da bunda.
E viva o “efeito clone”!!!!!!!!!!!!!

Voltando aquela apresentação, a “bailarina”, assim que  a empresária saiu do camarim, -  SURPRESA! - confessou: era chacrete no programa do... (gente, não tenho absolutamente nada contra as chacretes).

9-       O que se espera de uma boa bailarina e de uma boa professora de Dança do Ventre atualmente?

Essa é uma questão muito ampla,  abrange inúmeros aspectos. Vou pinçar apenas alguns que julgo importantes, sem desmerecer outros.

Para a bailarina:

Ética

Sem sombra de dúvidas, o mais importante. Respeito é fundamental em qualquer relação humana. Quando dançamos, estamos nos relacionando de um modo muito especial e intenso com o público, que merece todo o nosso respeito, carinho e consideração. Humildade ao pisar o palco. Nunca, jamais, em hipótese alguma, a bailarina pode convidar uma mulher para dançar e "arrasar", deixando-a sem graça e humilhada. Infelizmente já presenciei esta cena algumas vezes. O palco é a nossa casa. Se eu convidar alguém para a minha casa o mínimo que eu posso fazer é:

1 - recebê-la bem, acompanhá-la da porta até a sala  - do lugar onde ela estava sentada ou em pé - até o palco, ou o local onde vamos dançar

2 - dar-lhe atenção - ensinando-a, falando baixinho, só para ela ouvir, explicando movimentos fáceis, dançando junto com ela, o mesmo que ela, aquilo que ela pode e consegue fazer

3 - na despedida, acompanhá-la até a porta e agradecer a visita -  combinando com ela o momento de terminar o "show", fazer-lhe um agradecimento, bater palmas para ela e pedir que o público também a aplauda (afinal ela foi extremamente corajosa: ela não estava com "trajes de odalisca", não sabia dançar, confiou em você e se arriscou) e, finalmente, acompanhá-la até o seu lugar levando-a pela mão (detalhe: não como se estivesse passeando, mas com as mãos na altura dos ombros) e, então, continuar o seu show. Daí pode arrasar.

"Talento"

Nem vou tentar definir talento, que "não se discute": se tem ou não. E também não se ensina. Posso ajudar uma aluna, melhorar sua técnica, sua interpretação, todo o resto, mas não consigo "passar-lhe" noções de talento.

Algumas têm mais, outras têm menos. É algo que, muitas vezes, faz o público gostar mais de uma bailarina que ainda não possua uma técnica tão boa, mas que encanta, que cativa, ela transmite algo a mais, inexplicável na maioria das vezes.

Mas, meninas, não fiquem preocupadas, não: nós brasileiras, em grande maioria, somos muito talentosas.

Técnica

Quanto mais aprimorada for a técnica de uma bailarina, mais chances ela tem de fazer sucesso, já que ela possuirá muitas  habilidades e recursos para dançar, além de, importantíssimo, correr menos riscos de se machucar.

Para a professora

A melhor entre as melhores de todas as bailarinas pode ser uma professora medíocre. Saber dançar não significa saber ensinar, e, muito menos, ter os recursos e - desculpem a franqueza - a competência, os conhecimentos, a capacidade enfim para ensinar.

Ensinar é uma tarefa de EXTREMA responsabilidade, o conhecimento é imprescindível: uma professora sem uma sólida formação pode causar inúmeros danos à saúde das alunas, não só na dança do ventre, mas em qualquer outra modalidade de dança ou atividades físicas.

Assim, para ensinar, é preciso, além de saber dançar:

Cursar faculdade de dança, ou então fazer cursos que proporcionem conhecimentos sólidos e não apenas noções de:

- anatomia, cinesieologia, fisiologia e biomecânica para saber como o corpo funciona, como se move, qual músculo faz o quê etc

- procurar transportar esses conhecimentos para a dança, algumas vezes é uma tarefa difícil, então procurar orientação especializada ajuda muito

- se tiver qualquer dúvida, procurar trabalhar sob a supervisão de uma fisioterapeuta

- adquirir conhecimentos para dar aulas apropriadas a turmas diferenciadas: "melhor" idade, crianças

- submeter-se a alguma técnica de conscientização corporal como aluna mesmo

10-   Que dicas você daria para quem quer se tornar profissional na Dança do Ventre como bailarina e professora?

Como bailarina:

- Fazer muitas aulas em grupos e individuais

- "Beber da fonte", se possível. Beber da fonte quer dizer procurar fazer diretamente aulas com aquelas professoras "mais antigas", mais experientes e não apenas com a aluna da aluna da fulana. Não estou querendo dizer que fazer aula com a aluna da aluna da fulana não seja bom, é sim, mas é melhor ainda fazer as duas coisas.

- Fazer aulas com professoras variadas - cada professora dá maior ênfase para algum aspecto da dança, aprender com todas é, sem sombra de dúvidas, muito enriquecedor

- Estudar música, principalmente os ritmos árabes

- Assistir apresentações, shows, "vídeos" e outros registros, em especial, das grandes e renomadas bailarinas árabes, dos mais "antigos" aos mais novos talentos; alguns "vídeos" etc das americanas também são muito interessantes, descontando os "excessos hollywoodianos"

- Cuidar do figurino com capricho

- Conhecer a cultura árabe

Como professora

Todas as dicas para as bailarinas mais:

- ESTUDAR, ESTUDAR, ESTUDAR tudo o que foi apontado na questão acima

- não ter vergonha de dizer, de admitir que não sabe, não conhece algo quando a aluna perguntar, mas deixar claro para ela que vai empenhar-se em pesquisar e até mesmo, se for o caso, perguntar para quem possa saber e, depois, dar o retorno para essa aluna

- saber fazer uma espécie de breve anamnese de suas alunas, nos aspectos que são importantes para a prática da dança.

- elaborar um cronograma, uma programação do trabalho que deseja e que é possível desenvolver com cada turma e revê-lo sempre que necessário para ajustes.

- fazer avaliações periódicas do seu próprio trabalho, para verificar os pontos do cronograma que foram cumpridos, aqueles que foram parcialmente atingidos, os aspectos que precisam ser melhorados.

- elaborar avaliações individuais de suas alunas para verificar os progressos conseguidos e os pontos que precisam ser trabalhados

BAILARINA BUSCA SEMPRE APRIMORAR A SUA PERFORMANCE E A PROFESSORA BUSCA SEMPRE APRIMORAR SEUS CONHECIMENTOS.

www.malika.com.br

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