A bailarina Polímnia Garro gentilmente nos concedeu esta entrevista, onde nos conta sobre sua carreira, sobre como foi dançar em vários países árabes, e o que pensa sobre a Dança do Ventre. Confira! 1.Como se deu seu primeiro contato com a Dança do Ventre e como ela se tornou sua profissão?
Meu primeiro contato foi quando era ainda criança, através de uma certa convivência com a cultura árabe trazida por um tio meu, descendente de libanês. Sempre me meti a colocar roupas de dança e em todos os jantares de família, saía dançando, rs...
Minha primeira aula foi aos 14 anos de idade, em Belo Horizonte, com a Brigitte Bacha, responsável pela minha formação como profissional e professora.
Aos 18 anos, comecei a dar aulas e me profissionalizar, claro que movida pela paixão à arte como forma de expressão individual, mas principalmente pelo espírito de grupo que permeava o Studio da Brigitte.
A cada coreografia montada, a cada turma preparada e a cada festival realizado, eu me via mais envolvida com a dança. Hoje em dia, ela não é minha única profissão, mas não sinto que isto seja prejudicial. Pelo contrário, levo a dança de uma maneira bem leve, mas estou sempre estudando e me aprimorando... Como digo: "se não for para curtir a dança, para quê dançar?". 2. O que mais lhe encanta na Dança do Ventre?
Hummm... São tantas coisas... Acho que é, principalmente, a porta que ela abre para a explosão de sentimentos internos e para a entrada de sentimentos externos... Isso é riquíssimo para mim. E ainda tem aquela parte meio egocêntrica (e sim, ela existe!), de auto-realização. Acontece com qualquer expressão artística, você realmente quer que sua arte seja apreciada pelo público, e ter isso concretizado é uma das melhores sensações da vida!!!
3. Você disse que quando chegou aos paises árabes teve que reaprender a dançar. Por quê? Como foi isso?
Bom, quando cheguei nos países árabes, eu já tinha uns dez anos de dança. Achei que já sabia de tudo, minha primeira formação havia sido libanesa e os estudos mais recentes eram das egípcias, principalmente por estar na Casa de Chá - Khan el khalili.
Meu empresário Omar Naboulsi, com sua experiência no assunto, já havia me alertado para isso, mas achei que não era nada demais. Quando cheguei lá, entendi tudo! O estilo de dança praticado nos países árabes é bem mais forte do que o que dançamos aqui. Muito influenciado pelas libanesas, mas ainda com outras grandes influências de danças ocidentais, como jazz e ballet.
Além disso, há uma certa carga de "show business", onde a conexão com o público se faz indispensável. Até criei uma espécie de lema para esta situação: "a bailarina deve se posicionar entre a diva que comove e a artista que entretém".
4. Em quais países árabes você esteve, e como diria que é a Dança do Ventre em cada um deles?
Bahrain, Marrocos, Emirados Árabes e Tunísia. Ela é praticamente igual em todos eles (estou falando sobre os shows internacionais, não sobre os estilos regionalizados praticados pelas nativas); movimentos mais amplos, quadris mais fortes e rápidos, cabelos em destaque e giros ágeis são algumas das grandes marcas desse estilo.
A montagem do show é basicamente a mesma, com exceção do khaliji, o qual não dançamos em todos os países. 5. E como é/ foi viver em cada um?
Uma experiência única... A cultura é totalmente diferente da nossa, devemos seguir algumas "regras", mais por respeito do que qualquer outra coisa (vestuário, modos de se portar, horários, lugares onde ir etc). Claro que ao longo do tempo em que se mora lá, a gente vai se adaptando e ficando mais à vontade... 6. Há diferenças entre dançar para o público árabe e para o público brasileiro?
Nossa, sem sombra de dúvida! O que traz um grande obstáculo para a adaptação de uma bailarina brasileira nos paises árabes é a interpretação musical durante a dança. Não se pode esquecer que todo o público que nos assiste lá entende e canta a letra das músicas. E se a bailarina não se comunica com este público, seja através da interpretação da música, seja através do contato direto, ela pode estar se “enterrando”.
Já no Brasil, ainda há muita gente que nunca assistiu uma boa apresentação de dança e, por isso, o público se torna menos exigente. Falando do público em geral, claro... 7. Quando começou a Dança do Ventre qual idéia/ julgamento você tinha dela, e qual a sua visão hoje?
Comecei ainda muito nova, ingênua, não via nenhum traço negativo na dança e nem em quem a executava; como disse antes, eu era movida pelo espírito de grupo da escola onde comecei.
Na época, havia poucas bailarinas no mercado, a dança ainda era incipiente no Brasil e por isso menos trabalhada. Mas o lado bom disso era que não tinha tanta disputa no meio, éramos todas mais cordiais e até mais unidas. A dança era mais valorizada pelo público em geral.
Hoje em dia, por causa da saturação do mercado, vê-se Dança do Ventre em qualquer lugar, de qualquer nível e a qualquer preço... É claro que há um lado bom em tudo: é indiscutível o ganho de qualidade dos tempos de hoje. Não é à toa que exportamos bailarinas para todos os lugares do mundo, países árabes principalmente.
8. A Dança do Ventre tem um espaço grande no Brasil, pois o número de praticantes e de profissionais vem aumentando consideravelmente. Por que você acha que isso ocorre?
É difícil detectar precisamente o porquê disso. Mas acho que esse aumento foi diretamente proporcional à facilitação da informação. Antigamente, eu só tinha acesso às fitas de vídeo de bailarinas (libanesas, no caso) porque minha professora as trazia de lá diretamente. Depois que as brasileiras também começaram a lançar os seus vídeos e divulgar mais a dança oriental é que a coisa “aconteceu”; workshops foram levados a cidades onde não havia professoras, alunas vieram a São Paulo.
É uma dança muuuuuuuuuito encantadora, que enaltece o ego e resolve algumas “questões” femininas, fica fácil se apaixonar por ela, não é mesmo? Não é de se estranhar que há tantas profissionais e não-profissionais no mercado hoje em dia...
9. Quais características deve ter uma boa bailarina de Dança do Ventre? E como adquirí-las?
Em primeiro lugar, humildade. Descer do salto, literalmente. Ninguém é uma “deusa” dançando, rs... No Brasil, há essa crença de que a bailarina tem que entrar em cena encarnando o papel de “mito”, que tem que ser inalcançável, superior, essas bobagens.
Sempre acreditei no contrário, que é estando com o público, dançando para o público que você se torna completa. Isso ficou mais claro ainda quando dancei fora. É difícil, mas tem que estar estampado nos seus olhos a sua doação, naquele momento, para o público. Afinal de contas, eles estão ali por você, por que você não estaria ali por eles? Se for para dançar para si mesma, dance em casa, para o espelho... Conseguir essa “comunicação” é difícil, mas tente entrar em cena e, antes de mais nada, se apresentar ao público. Olhe no olho de cada pessoa que estiver ali, dizendo “olá, como vai? Eu estou aqui para dançar para você!”.
Mas o que mais admiro quando vejo uma bailarina dançando é a sua capacidade criativa associada à autenticidade. Não há nada mais chato do que, logo no começo de uma apresentação, vir à cabeça aquela velha frase: "putz, ela dança igualzinho à fulana..." ou "hummm... Já vi isso antes..." Temos que estudar de tudo, e muito!!!! Criar a sua própria bailarina não é tarefa fácil, necessita de tempo e experiência. Mas desde o começo, é legal identificar sempre o que você gosta e não gosta nas bailarinas que assiste e estuda. Daí, criar um repertório próprio, que não tem que ser necessariamente isto ou aquilo, egípcio ou libanês...
10. No Brasil há algum estilo de Dança do Ventre que predomina? E qual o seu preferido?
Acho que o estilo mais difundido no Brasil é o egípcio. Mas, devido à grande colônia libanesa presente aqui, há também aquelas bailarinas que se inspiram nas libanesas. Como disse antes, minha primeira formação foi libanesa, eram essas as fitas a que tinha acesso, que podia estudar.
Porém, depois que me mudei para São Paulo e entrei na Khan El Khalili, eu tive contato direto com o estilo egípcio. Ainda um “terceiro” estilo me atingiu em cheio (quando eu dancei nos países árabes), uma espécie de híbrido entre a expressividade do estilo libanês, a técnica do estilo egípcio e as inovações de passos inspirados em danças ocidentais. Este eu batizei de “Estilo Árabe Moderno” e é o que pratico agora.
11. Agradecemos imensamente pela disponibilidade e gentileza em nos conceder esta entrevista, e deixamos este espaço para que você diga o que quiser.
Bom, eu só tenho a agradecer!!! E me sinto honrada de estar aqui, falando o que penso e o que sinto. Estamos mesmo precisando de um espaço legal para divulgar a dança de maneira séria, como vocês estão fazendo! Parabéns pelo site e pela simpatia! Beijos gigantes!!!
Poli Contatos: polimniaarro@hotmail.com (11) 8124-9541
Conheça um pouco mais o trabalho desta grande bailarina assitindo os vídeos abaixo:
No I Encontro Nordeste de Dança do Ventre: Dim lights
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Show realizado em Belo Horizonte em fevereiro de 2006: Dim lights
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Dançando Khaliji - como é dançado atualmente nos países árabes - no evento de Fabiana Mahasin em São josé dos Campos em dezembro de 2006: Dim lights
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Clipe de cenas de seu show em Tunis em 2005: Dim lights
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Na festa dos 20 anos de carreira de Brigitte Bacha: Dim lights
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