Entrevista que a grande bailarina Jade El Jabel gentilmente nos concedeu.
1. Como e quando você se interessou pela prática da Dança do Ventre?
Em 1992, falando com duas amigas sobre cuidados com a saúde, atividades físicas, etc, uma delas falou que havia ido a um lugar que achou a "minha cara" e que tinha aulas de Dança do Ventre. Tinha um cartão da Khan El Khalili, fui até lá e, mesmo antes de ver a aula, já me encantei pelo clima, por aquela coisa colorida e, então, descolhecida. Minha primeira professora foi a Layla, escolhi pelo horário mas, no fundo, acredito que tenha sido Maktub e, através dos olhos dela, esse Universo foi apresentado pra mim, pela primeira vez.
2. E como ela se tornou sua profissão?
Naquela época, havia poucas bailarinas no Brasil, a dança acontecia, praticamente só aqui em São Paulo, não havia Mercado de Dança do Ventre, escolas, estrelas, workshops, etc, era tudo muito mais informal e tudo era feito no boca-a-boca. Assim, as pessoas ouviam falar umas das outras e indicavam aqui e ali e o resto, dependia do que a menina tivesse pra mostrar. Pouco antes de começar a haver aulas na Khan El Khalili, as aulas eram particulares, ou a dança era passada entre amigas, entre irmãs, muito vídeo. Eu peguei um pouco da geração anterior, desse estudo mais particular, pessoal, de recriar a dança, de ter um trabalho mais autoral e, como sempre levei muitíssimo a sério, peguei gosto (e jeito) e no então pequeno mundo da Dança do Ventre, começaram a ouvir falar de mim. Sobre ser minha profissão, sempre foi uma delas. Sempre tive mais de uma. Neste momento, tenho escrito (tenho uma coluna em uma revista sobre Dança, que é publicada, também, no site), desenhado, pintado - tenho feito telas a óleo, desde 2000 - uma atividade mais informal, ainda assim, prefiro ter mais de uma forma de expressão, mesmo que não tenha o tempo que gostaria, neste momento, para me dedicar à pintura.
3. O que mais te encanta na Dança do Ventre?
Isso é uma coisa que muda, né? Depende do momento... Neste momento, concluí (e posso desconcluir hora dessas) que é mais "quem" do que "o que". Não é uma bailarina fumando xixa em cena que conta, é a Fifi Abdo fazendo alguma coisa, entende? Tenho gostado de umas coisas que sempre gostei, gostado de ver coisas novas ao vivo e ando muito apaixonada por minhas alunas e por ser professora, então, neste momento (reconcluí!) o que mais me encanta na Dança do Ventre é a bênção de poder ensiná-la!
4. Quais requisitos são necessários para ser uma boa bailarina de Dança do Ventre?
Pergunta título de livro! Poderia passar três dias escrevendo somente sobre isso! Vou tentar enumerar:
1 - Estude muito! Não quero dizer horizontal e sim, verticalmente, estude as coisas com profundidade, dê mais um passo, sempre. Tenha foco, não é preciso, o tempo todo, estudar "de tudo", e sim estudar "tudo de". Todos os dias, de muitas formas, lendo, escrevendo, sentindo, dançando, treinando, fazendo aulas.
2 - Respeite seu corpo, seu estilo e seus desejos. Não se abandone, lembre-se sempre de quem você é, do que você quer ser.
3 - Respeite as pessoas que vieram antes de você, ao mundo, às artes, à dança, à dança do ventre, a expe riência é tudo e quando você tivé-la (se já não tiver) irá agradecer e ser agradecida por sua postura durante a carreira toda. Conheça as bailarinas brasileiras, as pioneiras, as que começaram, muito sobre a dança se explica no corpo dessas mulheres.
4 - Cuide-se, esteja linda, sempre! Cuide de seu figurino, mesmo do figurino que escolher para ir até o show.
5 - Seja profissional, pontual, responsável, cumpra com seus compromissos, não dê chiliques, tenha classe, muita classe, sempre.
6 - Seja gentil, tenha bons relacionamentos, fique longe de fofocas e encrencas. Isso tudo e talvez um pouco de Maktub.
5. E para ser uma boa professora desta arte?
Gostar de gente, gostar das mulheres, amar ensinar, estudar muito, ensinar absolutamente tudo que sabe, ter autoridade, lembrar-se sempre que autoridade é uma coisa muito diferente de autoritário e, antes de mais nada, se perguntar se você faria aulas com você, se você, realmente, está preparada para isso. Saber é uma coisa, saber ensinar é outra, é um passo bem a diante.
6. Como se adquirem tais características na sua opinião?
Sobre os "gostares" que falei, não se adquirem. A menina gosta ou não. Talvez aprenda a gostar mas, nesse caso, acho que está muito distante do ofício de professora. Sobre os "saberes", adivinha? Estudar, estudar, estudar, de várias formas, todos os dias, etc.
7. O que é mais difícil de ensinar às alunas sobre a Dança do Ventre?
Que se elas não estudarem além das aulas, não irão aprender a dançar. De novo, o gostar: Ensinar a gostar de estudar.
8. O que foi mais difícil de você aprender como bailarina profissional?
No meu caso não aconteceu um "momento" de tornar-me profissional, foi um processo lento, natural, que foi acontecendo. Depois, com mais experiência, trabalhando mais, tendo carreira, como qualquer pessoa que trabalhe muito com gente, difícil foi a parte burocrática, diplomática, etc. Lidar com coisas que eu sempre dei um jeito de não lidar.
9. De uns anos pra cá tem havido um crescimento intenso das profissionais de Dança do Ventre no Brasil. Você acha que este crescimento vem sendo acompanhado de qualidade? Por quê?
O crescimento das coisas, especialmente de uma coisa como essas, a dança do ventre, mercado informal, até underground, acontece como bem entende... Tem qualidade, bom gosto e também tem umas coisas bem bizarras. Acho que tem espaço pra tudo, tanto tem que está durando o movimento "vale tudo". Quando o "bizarro adentrou a dança do ventre" pela primeira vez, quando começaram a surgir coisas muito distantes do eixo autoral eu fiquei meio apavorada, depois, tentei discutir e, atualmente, pra ser sincera, me divirto, ou não vejo, vou fumar um cigarro. Sobre o que é bizarro, o que é bom gosto, isso é absolutamente pessoal e cada qual deve ter seu julgamento. O meu, prefiro guardar pra mim.
10. Agradecemos imensamente pela gentileza em nos conceder esta entrevista e fique à vontade para falar sobre o que quiser.
Muito obrigada, Querida! O prazer foi todo meu! Desejo a todas um ano espetacular, que Deus abençoe cada respiração, cada sonho, cada amanhecer!
ja vi apresentação da Jade no Alibabar, ela é uma excelente dançarina, e realmente com muita presença.. resumindo é maravilhoso ve-la dançar.. ela dança com a alma..