Entrevista com a grande bailarina Mahaila El Helwa, ganhadora do concurso mundial de Dança do Ventre no Egito em 2005.
1. Como foi pra você morar e trabalhar este tempo que ficou no Egito? O que você aprendeu lá? O que foi bom? O que foi difícil?
Ter a oportunidade de morar no Egito durante 3 meses foi, com certeza, a maior experiência da minha vida. Eu respirava 24 horas por dia a cultura árabe, conhecia melhor o povo, os costumes, aprendi a falar um pouco (bem básico) da língua, e posso dizer que minha dança mudou completamente. Costumo dizer que minha dança pode ser classificada A.E (antes do Egito) e D.E (depois do Egito), pois hoje sinto o verdadeiro sentimento do povo árabe enquanto danço, e essa é a melhor sensação e o melhor resultado de toda esta deliciosa aventura.
Estar perto da minha grande ídola, Raqia Hassan, fazer aulas particulares em sua casa, assistir Soraia, Dina, Randa Kamel, entre outras grandes bailarinas, ao vivo, naquele ambiente, é, sem dúvida alguma inesquecível. Não nego que, apesar de ter sido uma experiência inesquecível, sofri muito com o preconceito por não ser muçulmana, estrangeira e bailarina. Neste último caso, foi uma decepção muito grande, pois sofri preconceito em relação à dança exatamente no “berço” da dança do ventre. Porém, todos estes fatores são mínimos perto da experiência de vida que obtive, a qual, morro de saudades! 2. O que você mais admira em uma bailarina? Quem são as bailarinas que você mais admira?
Admiro muito o sentimento e a leitura musical da bailarina. Creio que técnica é muito importante, mas não é tudo para uma dança bem feita, mas esses dois critérios que citei anteriormente acho essenciais.
Em relação às bailarinas, sou completamente apaixonada por Raqia Hassan, por sua técnica e leitura musical tão apuradas, Soraia por ser simplesmente Soraia Zaied, que dispensa comentários, e Randa Kamel, pela postura e elegância. 3. Quais as características principais para ser uma boa bailarina? Como alcançá-los?
Costumo utilizar uma frase que ouvi da mestra Raqia Hassan: “Dançar com o coração e dominar a técnica”. Sentimento e técnica são requisitos primordiais para uma boa bailarina, mas eu ainda acho a parte fora do palco também é muito importante, a humildade em uma bailarina é essencial. Para alcançar tais objetivos, o treino é essencial, quando mais você repetir, mais terá um movimento melhor, para isso paciência e persistência, sempre!
Eu sempre digo que sentimento é algo que não se ensina, mas eu, como professora, sempre procuro despertar o amor pela música árabe às minhas alunas, como por exemplo, citar a grande cantora Om Kalsoum, que possui tantas músicas melódicas e sentimentais, que podem ajudar na hora de despertar o amor pela música árabe, e consequentemente, passar isso para a dança.
A humildade deve sempre ser levada em conta, a bailarina nunca pode se acomodar, achando que já sabe tudo, por isso, deve estar sempre se reciclando, estudando, e quando fizer isto, perceberá que tem ainda muito o que aprender, e é exatamente assim que me sinto toda vez que vou me aperfeiçoar. 4. Quais dicas você daria pra quem quer se profissionalizar e se aperfeiçoar na Dança do Ventre?
Creio que a pessoa deve ter paciência, esperar o corpo se acostumar aos movimentos, principalmente para quem está iniciando na dança, pois no início há uma certa dificuldade, mas que se supera, com certeza.
Para se profissionalizar, o estudo é imprescindível, uma vez que trata-se de uma dança muito rica, cheia de detalhes, e que requer dedicação, e também é importante saber lidar com diversos tipos de pessoas, sabendo qual é o objetivo de cada uma com a dança.
5. Você fica nervosa antes de se apresentar? O que você faz pra ajudar nesta hora?
Nervosa não fico, mas tenho um friozinho na barriga até hoje, o qual acho essencial, e espero não perder nunca! É aquela vontade doida de entrar no palco e mostrar para os outros o que eu mais amo fazer, que é dançar. Acho que se um dia não tiver mais essa emoção antes de entrar, a dança ficaria sem vida, por isso, quero continuar assim por muito tempo.
6. Dançar bem é uma questão de dom? Por quê?
Não, eu acho que todas as pessoas têm a capacidade de dançar bem, é só uma questão de dedicação. 7. Conte-nos um pouco sobre sua trajetória na Dança do Ventre.
Iniciei a dança aos 14 anos, estimulada por minha mãe que me levou a uma aula meio que “à força”, mas acabei adorando aquela nova descoberta e quis continuar. Assim, continuei fazendo aulas, e aos 15 anos, participei do concurso amador do Mercado Persa, em 2001, e foi aí que comecei a pensar em algum dia ter algo mais sério em relação à dança.
Comecei a dar aula para crianças em 2002, brinco que era uma criança dando aula para outras! Aahahaha! Tempos depois, comecei a dar aula para adultos, e assim, já estou há 6 anos.
Fico feliz por ter uma trajetória cheia de conquistas e realizações, como o concurso no Festival Ahlan Wa Sahlan, organizado pela Mestra Raqia Hassan, em 2006, no Egito, entre outras que guardo com muito carinho e que foram muito importantes para minha trajetória como bailarina. 8. Como foi a preparação para o concurso mundial de Dança do Ventre no Egito?
Na verdade, não me preparei muito, pois não fui com o objetivo de ganhar, mas sim, de fazer uma boa apresentação, pois só pela emoção de estar dançando no Egito, aquilo tudo já era uma grande realização. Procurei escolher uma música que já dançava há tempos no Brasil e que já tinha estudado do começo ao fim, e no dia mesmo, tenho certeza que o que fez a diferença foi a minha emoção, o meu sentimento por estar lá.
Não me preocupei em dançar para uma mesa de jurados tão bem composta, por Mona Said, Raqia Hassan, entre outros grandes nomes, mas imaginei a felicidade que a minha família estaria sentindo em me ver dançando naquele lugar mágico, e este foi o meu grande estímulo, e creio que fez a diferença. 9. Como é ser ganhadora do concurso mundial de Dança do Ventre? Como foi depois do prêmio? O que mudou na sua vida profissional?
É uma honra, um prazer muito grande, pois é o reconhecimento de um trabalho por grandes mestres egípcios, e a certeza de que eu estou no caminho certo.
Depois do prêmio, percebi que as pessoas começaram a ter mais interesse em ir ao Egito para participar do concurso, me pediam conselhos, e tudo mais, e claro, fiquei muito lisonjeada em poder de alguma forma ajudar. Com certeza melhorou muito minha vida profissional, passei a viajar bastante pelo Brasil para cursos, conhecendo meninas de todo o país, e até hoje, quase 4 anos depois, as pessoas têm curiosidade em saber como foi, e etc. Tem sido maravilhoso! 10. O que a Dança do Ventre significa pra você?
Uma grande paixão, uma coisa que me faz extremamente feliz. 11. O que mais te encanta na Dança do ventre?
Os benefícios que a Dança do Ventre pode trazer às mulheres, fico impressionada, pois senti muitas mudanças em mim, como em alunas minhas, que quando começaram eram completamente diferentes de como estão hoje em dia. É uma dança muito rica, que só faz com que as mulheres sejam mais felizes! 12. E fale sobre o que quiser neste espaço.
Mari, agradeço a você pelo espaço cedido, e saiba que é uma honra participar deste site tão lindo. Agradeço o carinho que muitas pessoas têm comigo, isso só me dá força para continuar meu trabalho. Logo mais estarei lançando um DVD didático junto ao meu querido amigo Tony Mouzayek, e espero que todos que tiverem acesso a este trabalho curtam, pois ele foi feito com muito carinho.