"Depois do texto sobre Mahmoud, muita gente começou a me perguntar sobre a Maira. Onde ela dá aulas, de onde ela é, o que faz... Decidi responder tudo em forma de entrevista.
Não escondo aqui minha admiração por ela como profissional e como pessoa. É uma entre os poucos e bons amigos que fiz neste mundo de dança.
O último vídeo aqui postado, é a apresentação mais recente dela e um dos meus vídeos favoritos por dois motivos: 1. Ela mostra que o básico bem feito pode ser incrível! 2. A leitura musical é impecável e invejável!
Mais uma vez, com vocês: Maíra Magno!" Luana Mello
1. Há quanto tempo você dança e como se deu seu primeiro contato com a Dança do Ventre?
Danço há 11 anos, meu primeiro contato foi quando o Tchan gravou a “Dança do Ventre” e apareceu uma professora aqui em Aracaju. Eu sou neta de libaneses e logo me interessei, na época eu nunca havia estudado dança alguma e de cara me apaixonei. 2. Dê-nos um breve histórico de quais caminhos você percorreu até então.
Breve é difícil. Quando eu tinha mais ou menos 2 meses de aula minha mãe me deu de presente um vídeo daquela que é até hoje meu ídolo maior na dança, a Souhair Zaki, de cara dava pra ver que não tinha nada haver com o que se ensinava aqui em Aracaju. Quando eu fiz 4 meses aula de fui passar férias em São Paulo (minha cidade Natal) e aproveitei para estudar a minha mais nova paixão, de inicio fiz um mês de aula com a Claudia Cenci, que estava bombando na época, e me deslumbrei. Fui aos eventos, nas lojas, nos ateliês, descobri um mundo novo, desde então eu já sabia o que eu queria ser quando crescer.
Voltando a Aracaju houve certa tensão em sala de aula, pois eu perguntava para minha professora sobre as coisas que havia visto e aprendido em São Paulo e ela não sabia me responder, então eu abandonei as aulas e comecei a estudar só por vídeos. Incomodava-me que nenhum dos vídeos que eu tinha me lembrava em nada a dança egípcia, até que em 1998 a Gisele Bomentre voltou definitivamente do Líbano assim como a Fádua Chuffi, uma Líbano – Brasileira que até então residia em Nova York. Ambas começaram a lecionar no Brasil.
Eu estudava com as duas. Com a primeira eu aprendia o “contexto” da dança no oriente, com a segunda os passos, isso ainda vivendo em Aracaju, fazia um mês de aulas particulares por ano, e me virava os outros 11 meses sozinha. Mas sempre me senti mal com a minha dança, era tudo muito difícil e inacessível para mim, até que eu tive contato com o trabalho do Mahmoud Reda como cito na entrevista anterior.
Em 2003 saí do país pela primeira vez, passei um mês no sul do Egito com o Shokry Mohamed que eu havia conhecido através da Fádua Chuffi, conheci os vilarejos, a cultura Nuba, a cultura Said e cheguei até a ficar hospedada na casa de uma família de ciganos, a família Kenawe. Foi lá que nasceu minha paixão pelas danças populares. Do Egito fui ao Marrocos e depois passei um mês e meio entre Portugal e Espanha, estudando e trabalhando com o Shokry e dando uma série de cursos em Portugal.
Em 2004, retornei a Portugal a trabalho, em 2005 fui à Argentina estudar Dabke com Amir Thaleb, onde ministrei cursos e fiz shows durante um mês, com bastante êxito. Na época, na Argentina, eles ainda estava descobrindo a dança egípcia, o estilo que imperava era o libanês. Em 2005, ainda retornei a Portugal para mais uma temporada de cursos e shows. Em 2006, fui ao Egito estagiar na Troup Reda e por acidente comecei a trabalhar lá, não havia se quer levado figurinos para dança, mas um grande produtor me viu dançando numa festa, e me convidou a trabalhar como free- lancer em vários eventos.
Dancei em lugares importantes como o hotel Semíramis, o mesmo que a Dina trabalha, o Cairo Hilton e na Ópera do Cairo. Em 2007, fui contratada pelo Hotel Le Palace em Kartago na Tunísia para ser bailarina residente do hotel, no mesmo ano fui a única bailarina do continente americano a ser selecionada para o Reality Show de Dança do Ventre Hezzy Ya Nawahem produzido pela LBC, a maior emissora de TV do mundo árabe.
Maíra Magno on LBC Lebanon: Dim lights
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Maira Magno in Tunis: Dim lights
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3. O que você estudou ou estuda, além da dança do ventre?
Tudo, porque como era auto- didata tinha que compensar a falta de professores. Estudei dança Contemporânea, Flamenco, Afro, Ballet Clássico por muitos anos, danças folclóricas nordestinas, música ocidental, música árabe, língua árabe, teatro, história e cultura dos povos árabes, e até um pouco de técnica vocal. Atualmente sou acadêmica de Artes Visuais na UFS
4. Fale um pouco sobre seu trabalho como bailarina. O que você busca, aonde quer chegar e quais são suas principais referências.
Como já coloquei não tenho a menor vocação para estrela, então não tenho sonhos de grandeza, fama e sucesso. Desde sempre eu queria ser boa, mas não acrobática como as bailarinas do ocidente, mas graciosa, limpa, elegante e simples como as bailarinas clássicas egípcias que me influenciaram. E até hoje é isso que busco. Hoje estou muito satisfeita com o que alcancei e muito surpresa também com tudo que consegui nesses 11 anos sem me meter na “fogueira das vaidades”, que é como eu chamo o ambiente comercial da Dança do Ventre no Brasil.
Minhas maiores influências são: 1º Suhair Zaki, 2º Mahmoud Reda e 3º Zaza Hassan. Hoje em dia percebo que fui extremamente influenciada pelo que a Gisele Bomentre me falava quando eu ainda estava começando, depois de 11 anos, e estando presente em muitos dos lugares que ela esteve, vejo que encaro a dança de uma maneira muito parecida com a dela.
5. E o que você desenvolve como professora de dança? Qual sua proposta e quais seus objetivos?
Minhas alunas me chamam de Capitã Nascimento. Eu quero uma tropa de Elite! (risos). Como sempre me incomodou muito o descaso com o “acabamento” da dança no Brasil, desde muito cedo trato minhas alunas como uma Cia. de Dança profissional. Acho um descaso a maneira que algumas profissionais tratam o magistério em Dança do Ventre no Brasil.
Por que no Ballet Clássico temos de fazer 8 anos de aulas, alem de ter de passar por vários testes para começar a pensar em ser profissional e na Dança do Ventre basta saber alguns passinhos?
Eu acho que esse tipo de postura classifica a Dança do Ventre como arte menor e eu não a vejo assim. Para mim a Dança do Ventre é tão grandiosa como qualquer arte maior. São necessários tanto estudo, disciplina e dedicação para ser uma boa bailarina de Dança do Ventre como para ser músico de Orquestra. Pela grande influência do Mahmoud Reda no meu trabalho tenho uma vocação maior para trabalhar com grupos. Há professoras que se concentram no trabalho de solistas, eu me concentro nas coreografias em grupo.
Por saber que meu estilo é extremamente particular e não reflete de maneira alguma a realidade da Dança do Ventre no ocidente, eu freqüentemente levo bailarinas renomadas no País para Aracaju, de maneira que minha alunas possam aprender outras maneiras de ver a dança e possam escolher o que mais lhes apetecem. Paralelo a este trabalho eu coordeno um projeto social chamado Varrendo Com Arte, onde dou aulas gratuitas de Dança do Ventre para as agentes de limpeza pública e para o sindicato das Empregadas Domésticas de Aracaju, neste projeto trabalho mais o lado de qualidade de vida ligado à dança.
Maíra Magno' s studants oriental dance: Dim lights
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6. Quais foram suas principais experiências fora do Brasil? O que aprendeu com elas?
As experiências eu já citei. O que eu aprendi é que cada país é um mundo, mas principalmente, que a dança no Oriente é uma coisa e no Ocidente é outra. Enquanto profissional é muito importante saber em que mercado quer atuar, porque cada mercado exige coisas distintas da profissional e em certos pontos não há intercessões, os caminhos são absolutamente díspares. 7. Qual a diferença entre trabalhar dentro e fora do Brasil?
Nossa, muito grande, vou ver se eu consigo transpor em palavras. A principal é que no mundo árabe dá para se viver de dança, no ocidente se vive de aula, de vendas de material, de costura, mas não de dança. Essa é maior diferença, lá você é bailarina e pronto, ganha bem e dá para viver decentemente só dançando.
Agora, as exigências do mercado são absurdamente distintas, aqui o nível técnico é muito mais importante que lá, até porque nós basicamente dançamos para alunas e estas querem ver em você o que elas não são capazes de fazer. No Oriente a beleza física é o mais importante, seguida do carisma, a técnica entra em terceiro ou quarto lugar na equação.
8. Um momento inesquecível da sua carreira.
Dançar na ópera do Cairo. Acho que foi o que mais me emocionou, me lembro de estar a tarde passeando pelo complexo da ópera e sonhando em um dia dançar lá, quando voltei para o hotel tinha um recado de meu empresário dizendo que eu tinha um show para fazer lá a noite. Mas cada espetáculo que estréio aqui em Aracaju me trás uma satisfação ímpar.
Este ano, no Festival do Projeto Social, consegui um desempenho das alunas que a anos tentava. São satisfações distintas, uma como artista, outra como professora e coreógrafa, só que tenho que admitir que a segunda é mais plena, especialmente quando você leva a dança à pessoas que jamais teriam acesso a ela.
9. Quais os conselhos que você dá para quem está começando a carreira profissional?
Olha o mais importante é definir logo o que você quer ser, e em que mercado quer trabalhar, porque como já falei cada um exige uma coisa. Eu desde muito cedo sabia que não queria me adaptar as exigências do mercado brasileiro, trabalhei neste sentido e hoje não sinto nenhuma resistência em trabalhar no mercado oriental.
10. Qual sua opinião sobre o mundo da Dança do Ventre no nosso país? Cite quais são os aspectos positivos e negativos em sua opinião.
Quando eu comecei, eu achava péssima, e era mesmo muito ruim. Faltava informação, faltava técnica, faltava preciosismo. Hoje em dia, as coisas estão bem melhores, há informação para todos e o nível técnico subiu muito. Eu atribuo esta elevação do nível da Dança do Ventre no Brasil à empresa Luxor, que contribuiu imensamente trazendo profissionais diretamente do oriente e fazendo festivais em que ha tempo suficiente de contato com os professores para se aprender algo. Nos modelos de 3hs de aula pouco se aprende.
Outra coisa que esta empresa trouxe, foi a concorrência com outras empresas, o que elevou o nível geral da dança. Quando duas marcas grandes disputam o mercado, quem ganha é o consumidor, e foi isso que aconteceu no Brasil. Agora artisticamente o nível é baixo, em termos criativos ainda estamos engatinhando. Mas como já trabalhei em 4 continentes sei que isso não é um problema local, é generalizado. Vejo a Dança do ventre no Brasil com bons olhos em termos comparativos com outros lugares do mundo.
11. Qual o principal motivo da sua paixão pela dança? O que lhe motiva a trabalhar com ela todos os dias?
A Suhair Zaki (risos). Comecei a dançar por ter visto vídeos dela, e até hoje é o que mais me motiva. Claro que hoje vivo da dança, é minha profissão tenho também outros estímulos. Enquanto professora e coreógrafa tratar com o processo criativo me anima demais. Trabalhar com formas, sons, expressões, cores, gosto muito. Também gosto muito de viajar e conhecer culturas e povos distintos, coisa que só consegui através da dança. Mas até hoje assistir a Suhair dançar é a minha mola propulsora.
Bate-bola
Data de nascimento: 21/10/1977
Livro: A Sombra das Romãzeiras de Tarik Ali
Filme: Adoro os musicais com Genie Kelly
Música: Popular Brasileira
Personalidade: Simples, gosto de gente comum
Personagem: Suhair Zaki
Nota 10: Quadrilhas juninas aqui em Aracaju e desfile das escolas de samba no Rio
Nota 0: A impunidade do País, a certeza que criminosos e corruptos ou sairão ilesos ou terão penas ínfimas
Não quero morrer sem: Comer! Deus que me livre morrer de fome!
Maíra Magno Bailarina e professora de Danças Árabes. (não mestra, eu não fiz o mestrado!)
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