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Coreografia e Improviso

Escrito por Fadua Chuffi

fadua_chuffiUm dos temas muito discutidos e que gera polêmica na dança oriental é dançar coreografando ou improvisando. Em minha opinião e gosto, sou a favor das duas formas, e uma bailarina profissional deve saber os dois. Ao resgatar as raízes e história da dança oriental vemos que ela foi transmitida até os dias de hoje, passando por momentos de coreografias e momentos de improviso.

Em diversos afrescos de distintas civilizações antigas podemos notar posições muita similares ao que conhecemos hoje como dança oriental, onde grupos de mulheres estão notavelmente realizando os mesmos movimentos e combinando suas posições. Em algumas representações destas celebrações, onde diversos deuses e elementos da natureza eram adorados, historiadores compartilham a opinião comum de que havia um desenvolvimento de passos que pareciam ser estudados e sincronizados, resultando hoje no que conhecemos como coreografia. Aliás na história da dança também podemos entender que estas foram as primeiras experiências neste aspecto.

Já nos anos 40 e 50 temos diversos materiais em vídeo, onde grupos de bailarinas egípcias desenvolvem suas combinações coreográficas, seguindo o “glamour” do cinema americano da época. Já nos anos 60, 70 em diante também vemos grandes nomes da dança oriental coreografando seus solos (Nadia Gamal, Najua Fouad, Soheir Zaki, dentre outras). Esta maneira de enriquecer e levar ao palco uma dança que começou em ambientes familiares dentro das tribos e muitas vezes em rituais sagrados, prosseguiu até os dias de hoje, tanto no Oriente como no Ocidente.

No princípio deste texto citei ser a favor das duas formas, da coreografia e do improviso. Por que? E como podemos aliar, usar, entender e equilibrar as duas maneiras de dançar? Posso apresentar tantas evidências que as duas formas são corretas e necessárias, que tenho certeza que este assunto deixaria de ser tão polêmico e muitas vezes depreciado por seguidores desta ou aquela forma de dançar.

Quando pensamos na dança oriental dentro do âmbito familiar, onde mães, filhas, tias, avós, primos e demais familiares saltam da cadeira para dançar aquela canção que lhes toca a alma e o coração, expressando cada um sua forma de sentir a música e, ao mesmo tempo, comunicando-se mutuamente, dançando um para o outro (algo comum na forma de dançar dos povos orientais que tem como tradição esta dança), podemos ver uma linda e autêntica forma de improviso, cheia de sentimento.

Outra vezes, uma das mulheres dentro destas reuniões familiares, a que possui mais desenvoltura para dançar, faz sua performance solo, com muita sutileza, graça e elegância, também improvisando. Aquelas leitoras que tiveram a oportunidade de vivenciar uma reunião destas, seja por ter familiares que pertencem a esta cultura ou apenas por participar de uma festa árabe, sabem do que estou falando. Fui afortunada por poder conhecer minha família paterna no Líbano, e sentir e viver momentos como este, puramente genuínos e tradicionais. Aí está o improviso como parte da essência desta dança. Por outro lado, o que dizer de algumas danças grupais e tribais utilizadas em países orientais onde um líder, o que mais domina a dança, comanda um grupo de pessoas que executa exatamente e repetidamente o mesmo passo? Vejo isto como uma “primitiva” forma de coreografia.

Aproximando-se mais ao improviso da dança oriental, me pergunto o que é para algumas bailarinas o improviso? Uma repetição de diversos passos aprendidos durante muitas aulas sem ter uma ordem pré-determinada? Imagino que muitas artistas sabem que não, pois o improviso com consciência, domínio e expressão vem do total domínio da técnica física junto a interpretação e entendimento musical. Para improvisar bem penso que dois requisitos são necessários: uma música que toque o coração, fazendo este sentimento desabrochar e transformando em movimentos, ou estar a música preferida tão interiorizada que os movimentos, uma vez dominados, expressarão todos os seus sentimentos e, junto com a música, se transformarão em DANÇA.

O improviso bem feito é fantástico e possui sua magia, pois nestes momentos fazemos passos e combinações inusitadas, às vezes impossíveis de serem repetidas depois. Ele ainda torna-se mais mágico se tivermos a oportunidade de dançar com uma orquestra de músicos que saiba seguir o improviso da bailarina, acompanhando e respondendo a cada movimento que é executado.

Lições de Nadia Gamal


A célebre artista Nadia Gamal, em uma de suas entrevistas durante sua visita aos Estados Unidos foi questionada se sua dança era coreografada. Sua resposta foi bem clara e esclarecedora, ela disse: “Palco é palco! Todos os meus shows são coreografados, até os taksims possuem uma estrutura para que eu os possa coreografar. Ao improvisar um show inteiro, devido a responsabilidade diante do público, o artista pode cair nas repetições ou dar um branco!”

Acho esta resposta excelente, pois se realmente queremos elevar a dança oriental em um patamar junto às outras danças, por que não pensarmos nela cenicamente mais desenvolvida também? Não acho que isto é comercializar nem mudar a essência desta dança, e sim enaltecê-la.

Ao coreografar uma música cada artista desenvolve um trabalho ímpar na leitura musical e isso permite a cada uma de nós desenvolver e mostrar seu trabalho artístico. Dançando uma música coreografada, a artista também pode se expressar com muito mais naturalidade e intensidade, pois não estará preocupada com os passos, ou seja já tem sua sequência ensaiada.

A coreografia desenvolve a memória coreográfica, tanto quando feita pela mesma profissional que irá dançá-la, quanto aprendida de outra pessoa, algo tão importante para uma profissional. Também por experiência própria, ao montar um show com músicos árabes que trabalham nos países árabes, é necessário ter um show estruturado com a música e a dança ensaiados. Ai do músico que não segue o que a bailarina faz ou que muda a música de surpresa em plena apresentação da artista!

Finalmente, podemos concluir que as duas formas de dançar são corretas dentro da dança oriental, tanto uma quanto outra apresentam sua dificuldade, arte e beleza. Dentro de uma mesma coreografia podemos utilizar as duas formas de dança, coreografando os pontos e mudanças mais marcantes da música, e improvisando o restante.

Sendo assim, a bailarina profissional deve saber improvisar quando necessário e dançar coreografias também quando necessário.

 

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