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Ives Al Sahar

Escrito por Mell Borba

 

Entrevista com o grande músico baiano Ives Al Sahar, que entre outros talentos, desenvolve uma série de projetos sociais com o derbak. Confira!

 

 1. Quanto tempo você toca Derbak e como começou?

 


Comecei a tocar Derbak desde 1997. Não foi nada fácil no início, pois apesar de existirem excelentes músicos na Bahia não havia professores ou alguém que estudasse de forma profunda as especificidades técnicas do derbak. Então comecei a me mobilizar para viajar e estudar com os derbakistas brasileiros e também com músicos internacionais. Foi e uma verdadeira peregrinação que não acaba nunca. (Risos)

 

 


2.    Como então estudar Derbak sem ter que peregrinar tanto?

No Brasil é um pouco difícil, por isso mesmo, devido à minha própria experiência e dificuldade para aprende a tocar o instrumento, resolvi criar um material didático (Método Intuitivo para Tocar Derbak) que pudesse ser estudado não só por músicos, mas por toda a gama de interessados em aprender derbak.

Também disponibilizo algumas páginas desse método de forma gratuita no meu site (www.ivesahar.com.br ), essa é a minha contribuição para os apaixonados por derbak mundo afora, já que o método está traduzido em três idiomas. Além disso, o estudante deve manter o maior número de contatos e professores possíveis para aprimorar cada vez mais sua técnica e musicalidade.

 



3.    Quais são suas influências musicais?

O mundo árabe foi premiado com músicos e cantores geniais, como também a Turquia. Abdel Halim Hafez, Baly Othmani, Hossam Ramzy, Elia Baida, Serkan Ozdiler, Onur Nar, Onur Il e a cantora Intizar são exemplos, eu escuto todos eles.

Quanto à escola que sigo em relação às técnicas de derbak são principalmente a egípcia e turca.

 



4.    Você desenvolve algum Projeto Social?

Sim. Acredito que os artistas têm um papel muito importante com a transformação social. A arte te faz enxergar a vida por outro ângulo, a respeitar a cultura de outros povos, te faz respeitar as pessoas que estão ao teu redor.

Hoje tenho três projetos Sócio-culturais: Crianças Criando, que, através de vivências com música, dança, poemas, contos árabes e símbolos lúdicos, vira veículo de integração social e resgate da identidade cultural além de fomentar expansão criativa infantil; Projeto Toque Derbak, que tem como objetivo facilitar e democratizar o acesso às técnicas deste ícone da música árabe; e o projeto Tardes do Oriente, que reúne simpatizantes da música, dança e cultura oriental, em torno de atividades que remontam à livre manifestação artística e cultural dos antigos povos.

 



5.    Qual dica você daria para bailarinas apresentarem um bom solo de derbak de improviso?


A bailarina precisa ser segura em relação aos movimentos básicos, saber a hora de deixá-los secos, precisos e espontâneos.  A bailarina deve dominar, além da dança, a contagem da música (compasso), a leitura de dinâmicas, intenções e intensidades, precisa também identificar as células rítmicas, e ter uma boa interação de palco com o músico.

 

 


6.    Como deve ser a relação entre o músico e a bailarina no palco?

Primeiro a bailarina deve estar atenta ao musico a não incorrer em um erro muito comum de “ignorar” a presença do músico como ele fosse um aparelho de cd, sobretudo se for num solo de derbak de improviso ou semi-improviso no qual eles precisam de muita sintonia, uma vez que a criação das frases musicais e transições rítmicas são realizadas “por princípios” por parte do derbakista e será fortemente influenciado de acordo com a graficação feita pela bailarina. Se a música executada for uma composição ou fixa para coreografia, ai então ela pode ser dançada sem uma interação visual ou comunicação direta com os músicos, pois todos os compassos ou transições estarão ajustados previamente.

 



7.    Até que ponto recebemos influência árabe na nossa cultura? Como isso ocorre na musica?

Muita. Pense que a península ibérica sofreu a dominação árabe por cerca de 800 anos, nos quais costumes e cultura ficaram fortemente arraigados naquele povo, também imagine que o Brasil tem pouco mais de 500 anos de cultura, isso pode dar a real noção do que foi a influência árabe sobre o povo que logo em seguida nos colonizou. Não é a toa que o autor Luis Soler, reivindica ao árabe o posto hierárquico dentro das genealogias e ascendências que habitariam o solo nordestino do Brasil nos primeiros tempos, e do qual também faziam parte os jesuítas e antigos trovadores.

Apesar de estar na cidade de São Paulo a maior comunidade árabe no Brasil, é no nordeste Brasileiro que encontramos traços fortíssimos da cultura árabe difusa entre todo o povo, sobretudo na musicalidade e manifestações artísticas de uma forma geral. Como exemplo disso podemos fazer um comparativo dos ritmos árabes com ritmos tipicamente nordestinos como o baião e o soud, ritmos praticamente idênticos muito difíceis de distinguir entre si, ou ainda a comparação entre o ritmo malfuf e a nossa “embolada”, lembrando que a tradução literal para malfuf é “enrolado” em português; o ayub e a capoeira da Bahia têm as mesma células rítmicas; karathi e afoxé entre muitos outros casos como também a “Ciranda”, nome que teria evoluído do vocábulo árabe “Çarand”, onde os passos são muito parecidos com os do dabke. Essa é uma pesquisa longa e profunda que convido todos a fazerem, pois nem nós brasileiros sabemos da dimensão desse legado e nem eles (os árabes) sabem o quanto influenciaram a nossa formação cultural.

 



8.    Como você enxerga o atual mercado da musica árabe no Brasil?

Podemos perceber um aquecimento no mercado de musica árabe, em parte alavancado pela nova novela que fala sobre a Índia e que de alguma maneira remete ao mundo oriental, e em parte por um maior amadurecimento dos profissionais. Cada vez mais vejo músicos dedicados ao estudo dos instrumentos árabes e bailarinas se aprimorando e pesquisando. Isso tudo é muito bom, pois precisamos saber separar o que realmente é bom e criativo do que é só repetição sem personalidade artística, falo de uma criação dentro dos parâmetros existentes e dentro da pesquisa séria e com respeito às tradições.
Ainda acho no meio muito competitivo e um tanto hermético, onde infelizmente nem sempre os melhores são os mais valorizados e reconhecidos, mas esse é um problema que o natural processo de amadurecimento resolverá em pouco tempo.

 



9.    Qual sua dica para os músicos que desejam se profissionalizar no derbak?

A primeira grande dica é que não existe verdade absoluta sobre o derbak, e fique atento, pois existem vários estilos e técnicas, e cada um “puxa a farinha para o seu saco”. O bom estudante deve saber separar o joio do trigo. Deve também estudar as diversas nuances dos tempos e dinâmicas dos ritmos, pois com isso consegue-se trabalhar a tão almejada e importante expressividade musical, elemento essencial na formação de um musico profissional, e o mais importante de tudo isso: quando estiver tocando bem, multiplique a informação e não permita que o seu conhecimento seja usado para ferir ou diminuir ninguém.


Entrevista realizada por Mell Borba, especialmente para o Central Dança do Ventre.


Contato:
www.ivesahar.com.br
contato@ivesahar.com.br
Telefone: (71) 8733.5854

 

Conheça mais o trabalho deste grande músico assistindo os vídeos abaixo:

Taksin Nay / Solo de Derbak - Ives Al Sahar e Aisha Hafza

 

Ives Al Sahar | Projeto Crianças Criando



Ives Al Sahar | Tardes do Oriente


Solo de derbak - Ives Al Sahar no Elements (Zen, Cícero e Selene Nefher)

 


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