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Grupo campeão Dabke no Líbano 2017

Escrito por Bruna Nassif

 

Nos dias 21 e 22 de julho de 2017 aconteceu no Líbano o 1º campeonato Mundial de Dabke. O convite já havia sido feito para o Grupo 1001 Noites com certa antecedência. Somente 1 delegação de cada país convocado participaria do evento. O campeonato teve como intuito maior reunir os difusores da cultura libanesa fora do Líbano, no Líbano.

 

Quando o diretor do grupo, Raymond Bordokan nos deu essa notícia, ficamos estupefatos, ansiosos, foi um mix de coragem e insegurança, um medo de dar errado, medo de colocar expectativas demais e não acontecer. Pois este era um sonho grande demais para a maioria dos integrantes do grupo, tão grande que não parecia ser realidade.

 

Após um tempo de maturação da ideia, decidimos apostar todas as fichas neste projeto único, e enfrentar mais um desafio. A organização do evento cobria hospedagem e alimentação durante os dias de evento.

 

Um dos nossos maiores obstáculos era conseguir 11 passagens para o Líbano, sabendo das dificuldades do Brasil quando se trata de patrocínio, incentivo à arte e a cultura. Nosso diretor abraçou esta causa e com muita garra buscou patrocínio para nossas passagens.

 

Enquanto isso, o grupo composto por 10 bailarinos ensaiava incansavelmente, levando em consideração as dificuldades de organizar agendas, horários, trabalhos. Todos deram 100% de energia, motivação e principalmente integração. Um grupo sem integração não é um grupo. O trabalho coreográfico ficou por conta de Teo Versiani para ambas as coreografias, com apoio e auxílio de Paty Saad para os momentos e movimentos femininos.

 

Foi então que eu percebi que o que era um sonho unitário para cada um de nós, virou um sonho coletivo, e nunca uma frase fez tanto sentido para mim como essa, de que um sonho que se sonha sozinho é apenas um sonho. Um sonho que se sonha em conjunto é realidade! E assim foi. Não foi fácil, o desgaste foi intenso e cada vez mais próximo a data mais nos sentíamos fadigados.

 

Chegamos no Líbano ainda não acreditando estar lá. Eu me senti em casa, um país extremamente bonito, aconchegante e um tanto familiar ao Brasil.

 

Saímos do Brasil com 2 coreografias montadas, uma de 7 minutos e outra de 10 minutos, conforme constava no regulamento. Na sexta-feira haveria uma cerimônia de abertura, e cada delegação dançaria “improvisado” com a banda ao vivo, e no sábado dançaríamos as duas coreografias. Isto segundo o regulamento.

 

Chegando lá, para nossa surpresa, seria necessário decorar uma coreografia nova (chegamos na quarta-feira à noite, tivemos somente a quinta-feira para ensaiar e decorar para dançar na sexta). Coreografia de abertura da cerimônia, com todas as delegações juntas, todos os bailarinos participantes misturados, cada um com seu lugar. Para fechar com chave de ouro, ainda descobrimos que precisávamos dançar dentro desta abertura uma sequência também que deveria ser montada naquele momento, numa música que nunca tínhamos ouvido, um daqueles dabkes bem clássicos.  Então, acatamos a ideia, montamos, decoramos, nos desdobramos muito.

 

O local do evento era num clube belíssimo, Hayda Lebanen, no pico das montanhas do Líbano, se olhássemos para baixo poderíamos ver as nuvens. Imagine que nossa passagem de palco foi na Quinta as 15:00h embaixo de um sol ardido, e o palco era aberto, sem toldo. Esta foi a nossa primeira adaptação e experiência numa altitude tão extrema, e num calor bem extremo também. Este foi um desafio a ser superado.

 

No dia da competição a energia foi tão forte que não consigo comparar com nada que vivi anteriormente. Particularmente falando, fiquei muito nervosa durante o dia, com tremedeiras, suando frio, dor de barriga, sede, fome, falta de fome, tudo ao mesmo tempo, num nível em que nunca vivi antes. O que me emocionou demais foi a energia que o grupo teve, a conexão maravilhosa que aconteceu ali. Foi um sentimento de união, gratificação, empoderamento, coragem, coisas boas que vieram de uma maneira tão forte. Nos reunimos diversas vezes em círculos, e rezávamos, chorávamos, conversávamos, não podíamos borrar a maquiagem, foi aquela emoção antes de entrar no palco!

 

Quando entramos, eu tenho certeza que todos os bailarinos sentiram a mesma sensação. A sensação de que não poderíamos estar em nenhum outro lugar do mundo que não fosse ali, representando uma cultura fantástica, que respeitamos tanto, que amamos tanto! E o público sentiu isso! Os jurados vibravam junto, eu nunca vi nada igual! Nossa primeira coreografia foi a que utilizamos as bandeiras. Já na 2º apresentação, lá de cima do palco era possível ver várias pessoas e crianças que conseguiram pegar as bandeiras do Brasil no cantinho onde deixamos, acenando e balançando a bandeira. Cativamos uma torcida de libaneses para o brasil!

 

Não posso deixar de falar da dificuldade para respirar, da falta de ar que todo mundo sentiu e das dores no pulmão. Sentimos na pele o que as diferenças de altitude fazem conosco. Todas as delegações saíram do palco tossindo, precisando de água com urgência. Pois além de toda energia, gás, gritos e sorrisos que damos no palco, que naturalmente faz com que a boca fique seca, tiveram todos os outros motivos geográficos que também influenciaram demais no desempenho de todos os grupos. Então mais um ponto positivo de superação.

 

Ao final da 2º coreografia, saímos do palco e escondidos atrás da capela que havia ali, nos abraçamos, e choramos, choramos, choramos! Era um sentimento de trabalho bem feito, de entrega 100%, de certeza que fomos bem, de certeza que já éramos vencedores só de ter ultrapassado tantas barreiras. E então, voltamos ao palco para a premiação.

 

Entre textos e agradecimentos (em árabe, pelo orador da cerimônia), os que não falavam árabe tentavam identificar o que ele queria dizer, e perdidos nas suposições sobre o que estavam falando, o Brasil foi consagrado o Campeão Mundial de Dabke!

 

Um dos mais memoráveis momentos da minha vida, ao lado de pessoas tão queridas que se tornaram verdadeiros irmãos nesta empreitada.

 

Então finalizo este texto agradecendo um a um. Raymond Bordokan por acreditar e fazer acontecer! Aos bailarinos Teo Versiani, Fábio Galvão, Bruno Melone, Fael Rabello, Monique de Kervelegan, Moamar Melek, Lili Zahira, Paty Saad, Tayná Carlini e a mim. Temos um mérito e uma honra enorme por ter trazido este título para o Brasil. Que seja o primeiro de muitos. Pois o mundo nem imagina o poder que os brasileiros, quando dedicados e empenhados, têm. Como somos bons no que fazemos, e como ter paixão faz toda diferença!

 

 

 

 


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